As ocupações
Sexta, 28 de Outubro de 2016

Eu vejo as escolas sendo ocupadas por estudantes e fico pensando: e se fosse na minha época? Certamente eu seria um dos mais agitados alunos acampados nas escolas. Se meus pais deixassem, é claro. Numa época sem celular, demorar muito para chegar em casa depois do colégio já poderia ser motivo para várias perguntas, imagina se eu trancasse as grades do Cañellas ou do Roncalli! Enfim, acho que eu não teria a liberação paterno-materna, mas que eu iria achar legal participar, ah, sim, com certeza iria.

Na verdade, logo que ingressei na faculdade eu procurei participar do movimento estudantil. Cheguei a ser representante do Diretório Acadêmico e da comissão eleitoral do DCE. Infelizmente, naquela época as coisas eram meio paradas. Manifestações só aconteciam para protestar contra a passagem de ônibus. E desisti logo de ser mais um a repetir os mesmos discursos pré-fabricados, que volta e meia citavam a ditadura militar. Eu sei, hoje não faz sentido, mas na época conseguíamos relacionar protesto por passagem de ônibus com repressão. Dois semestres depois, eu continuava participando das reuniões do DCE, mas ia para ser do contra mesmo, para questionar quem achava que estava questionando algo. Não me tornei uma pessoa popular, afinal a direita me empurrava para a esquerda e vice-versa.

Tem um lado que eu acho bacana nessas ocupações. É a realização de um sentimento juvenil de desafiar o sistema. De imaginar-se fazendo algo grandioso, de se olhar no espelho e enxergar um cara engajado, que não é alienado e tudo mais. Faz parte da formação política, por mais que seja de certa forma direcionada, ideologizada e coordenada por alguns que seguem mandamentos partidários. Enfim, uma hora.

Eu não estou questionando aqui a importância de movimentos sociais. Ao contrário: reconheço que eles são poderosos. As lideranças que conseguem cativar um grupo grande de pessoas a ponto de fazer com que assimilem um discurso único, contra algum inimigo em comum, é uma ferramenta que causa efeito na opinião pública. Só implico é quando (sem querer generalizar) as lideranças servem a senhores que não aparecem, que não colocam a cara a tapa. No DCE ocorria isso. Embora todos negassem, era claramente partidarizado. E não apenas por um partido. Todas as siglas tentavam. Porém, aquelas que seduziam pelo discurso em geral eram as que colocavam a sede por “revolução” até no nome. E, para afirmar isso, era preciso coragem e disposição para enfrentar palavras fortes, como se tivesse cometido o maior dos sacrilégios.

As atuais ocupações das escolas são motivadas contra a PEC 241, já intitulada como “PEC da Morte”, por congelar gastos do governo e por, supostamente, cortar recursos da Educação e da Saúde. Eu ainda não tenho uma posição definida sobre a PEC, como escrevi há duas semanas. E conheço vários especialistas que também tem dúvidas sobre ela. Fico pensando aqui: ou os estudantes examinaram toda a PEC, detalhe por detalhe, e chegaram a essa conclusão, ou foram “esclarecidos” por alguns segmentos. Que, possivelmente, também receberam a informação de outros organismos. É inválido? Claro que não. Porque pode ser que haja uma intenção pura na maioria dos estudantes de estarem sendo logrados pelo governo com a PEC 241. Me preocupo com a maioria dos outros estudantes que não estão tendo aula. Talvez não estão na ocupação porque os pais não deixaram. Pode ser (acho que os meus também não deixariam). Então não cabe julgar se a maioria está representada ou não. Entretanto, se há ali algumas outras reivindicações não estudantis, é sinal que há, sim, uma certa doutrinação. E aí, poderemos entrar no debate da Escola Sem Partido. E aí vou precisar de uma outra coluna…

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