A reformulação da esquerda
Sexta, 04 de Novembro de 2016

Essas eleições não representaram a derrota da esquerda. Não diretamente. Foi a derrota do PT e, por consequência, a derrota da esquerda. Isso porque o Partido dos Trabalhadores, desde sua fundação, colocou-se como sendo a única esquerda viável do país. A cada coligação que formavam, com títulos como “Frente de Esquerda”, o PT sempre foi o protagonista e carregava a reboque siglas como PSB, PCdoB, PCB, etc. Nenhuma delas conseguiu grande destaque, e só passaram a ter algum crescimento quando partidos maiores, como PTB e PDT, aproximaram-se do PT tirando o espaço dos antigos parceiros, que passaram a experimentar candidaturas próprias e até apoio a candidatos de outras siglas.

Ao dominar pelo discurso bem ensaiado o campo de esquerda, o PT empurrou outros partidos que se intitulavam de centro-esquerda (como o PSDB) para a direita. Os tucanos até resistiram por um pequeno período, até descobrirem que o país, em sua essência, ainda tem como valores dominantes os que a “direita” defende. É cultural. E isso se tornou mais evidente pelos erros cometidos sob a liderança do PT (não esquecendo que boa parte da “direita” cometeu os mesmos erros. Mas da direita sempre se esperou isso, e não da esquerda, que chegou ao poder com a bandeira da moralização).

Olhando o copo como meio cheio, vejo essa rejeição pelas urnas como um bom momento tanto para o PT quanto para a esquerda para a reformulação. Seguir brigando só vai fortalecer o outro lado, e encolher ainda mais os partidos. A partir de lideranças gaúchas do PT, já há movimentações para tentar reformular a sigla, para que seja feita uma autodepuração, que se olhe para dentro, reboquem as próprias falhas. O ideal é que haja um processo interno forte e transparente, para que a credibilidade, junto ao eleitor, que já foi a maior da história do Brasil, retorne. Há quem defenda, inclusive, a criação de um novo partido. Como tudo é cíclico, essa maré mais conservadora vai baixar. Não é de uma hora para outra, mas é necessário que se esteja pronto quando chegar a hora.

Já aos demais partidos, chamuscados pelo desgaste do PT, cabe ocupar o espaço que a sigla perdeu nos últimos anos. Na extrema-esquerda, o PSOL tem feito isso com uma certa competência. Na centro-esquerda, o PSB e o PCdoB estão tentando, assim como a Rede e até o PDT. Daqui a dois anos, teremos uma nova eleição presidencial. Quem conseguir se preparar melhor, tirar lições de tudo o que aconteceu, quem tiver mais sensibilidade para entender o sentimento do eleitor, vai largar na frente. Pelo menos, no que se refere à ocupação do espaço da esquerda. E sair na frente significa também reconstruir uma base forte junto aos militantes, que hoje estão com a autoestima em baixa, desencantados com os rumos da política.

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