Tempo de cortar e vender
Sexta, 11 de Novembro de 2016

Quem vive dentro da "bolha" da política nem sempre consegue entender direito o que está passando na cabeça do eleitor. Muitas vezes, chutamos que um governo vai bem ou mal a partir do que se comenta no ambiente que nos cerca. Porém, obviamente, quem nos cerca quase nunca é a representação fiel do eleitorado. Por exemplo: vemos o Governo ser massacrado pelos servidores públicos por causa do parcelamento de salários. O sentimento das corporações reflete fielmente o da imensa maioria dos gaúchos que não são servidores públicos? Claro que não. Sim, há uma certa solidariedade, mas não é a mesma coisa. O mesmo podemos falar sobre os servidores das fundações que o governo pretende extinguir, e sobre as estatais que devem entrar no pacote de privatizações. Quem trabalha nelas e quem tem por ideologia um Estado que seja dono de tudo não quer isso. Com certeza, vão lotar a praça em frente à Assembleia e ao Piratini. Porém, o cidadão comum dificilmente vai ter o mesmo ânimo.

Se tem algo que as últimas eleições deixaram claro é que falar em privatização e cortes de gastos não assustam tanto quanto se imaginava (ao menos, tanto quanto eu imaginava). Muitos dos vencedores disseram nas campanhas que vão privatizar, cortar gastos. E ficaram fora do segundo turno nas maiores cidades justamente quem condena essas práticas. Talvez a desilusão com a política, mesmo que inconscientemente, fez com que o cidadão comum aceitasse melhor a ideia de que, se o serviço público não funciona direito, ou se serve para desvios de dinheiro público, então que se passe para a iniciativa privada. Sem contar que há a visão preponderante de que quem trabalha no que é público (exceto policiais e professores, acredito) são privilegiados.

De dentro da “bolha”, fico tenso com as reações extremistas. Na política, nada que seja radical demais me parece bom. Não consigo bater palmas para um governo inflado, cheio de CC’s, com fundações e estatais para tudo quanto é coisa, nem para um governo que só cuide de educação, saúde, segurança e assistência social. Parece que o contexto está bastante favorável para “menos Estado”, com tendência de aprovação, em nível federal, da PEC 55 (antiga PEC 241, a “PEC da Morte”). E, no Estado, estão na mira da tesoura do Governador imóveis, a Cesa, a Corag, e tantos outros, e ainda podem ser negociados com a União parte da CEEE e, quem sabe, a Sulgás.

Não sei se o eleitor está com saco para saber se as coisas estão indo no caminho certo ou não. Para não ficar em cima do muro (se é que minha opinião conta alguma coisa), vou propor uma espécie de raciocínio sobre as privatizações. Se, por exemplo, além de cortar gastos desnecessários, a venda de uma estatal melhorará os serviços prestados, a favor. Se a ideia for se desfazer de patrimônio simplesmente para pagar folha de pagamento, nada feito. Se vai render um valor considerável para que o Estado volte a investir nas áreas fundamentais, a favor. Se o objetivo é apenas pagar contas, não tem como. Porque, afinal, o dinheiro que se vai conseguir é finito, e os problemas ali na frente seguirão sendo exatamente os mesmos.

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