Nem tudo está perdido
Sexta, 02 de Dezembro de 2016

Eu sei que a conjuntura em que estamos vivendo não é animadora. País com crescimento negativo, desemprego, denúncias e condenações da elite política, etc. Toda e qualquer desconfiança é justificada. Entretanto, dá para enxergar um lado bom em tudo isso. Não é deboche. Apesar dos efeitos colaterais (inclusive do crescimento de radicalismos de esquerda e direita), dá para notar, por exemplo, que tem muito mais gente atenta ao que ocorre nos círculos de poder.

Se tivemos alguma evolução depois de tudo o que tem acontecido é exatamente isso. Um exemplo importante ocorreu nesta semana, em que os deputados federais alteraram o pacote contra a corrupção, originalmente proposto pelo Ministério Público Federal e com a assinatura de 2,4 milhões de brasileiros, de maneira que aliviasse a vida de quem tem rabo preso nas investigações da Operação Lava-Jato. Entre as alterações, derrubaram a previsão de tornar crime o enriquecimento ilícito de agentes públicos, a mudança que evitaria a prescrição dos crimes, a possibilidade de cassação de registro dos partidos por crimes de caixa 2 e, ainda, criaram a punição a juízes e promotores por abuso de autoridade. Ao menos, a maioria não teve a cara de pau de acrescentar a cláusula que anistiaria crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

A votação ocorreu momentos após a tragédia com o avião que levava a Chapecoense e jornalistas para a Colômbia. Apesar da comoção que isto gerou, não abafou os protestos da população. Se o pacote (o original, e não o frankenstein criado no plenário da Câmara) já tinha apoio popular, depois da ação dos deputados federais ganhou ainda mais força. O dia seguinte foi de justificativa por parte daqueles que apoiaram as mudanças. Nas redes sociais, a divisão direita-esquerda se diluiu, até porque deputados dos dois lados apoiaram a vigarice. Quando Renan Calheiros e outros senadores aliados tentaram votar o projeto do jeito que veio da Câmara, sem alterações ou debates, foi derrotado. Será que, em outros tempos, quando poucos davam bola para o que ocorria em Brasília, a votação não teria ocorrido? Penso que passaria batido, com no máximo uma nota ou outra nos principais jornais e telejornais.

Inegavelmente os tempos são outros. Os atuais políticos estão sendo forçados a, no mínimo, disfarçar os atos. Faça um teste: entre nas páginas e perfis do Facebook de quem ajudou a aprovar as alterações e observe o conteúdo das mensagens. Aqueles que sonham com um futuro político promissor sentem a pressão. Sabem que estão sendo “vigiados”. E isso, definitivamente, é uma grande evolução, não dos políticos, mas dos eleitores. Claro que ainda há equívocos e mentiras espalhadas nas redes, porém até isto está colaborando nessa espécie de “politização em massa”. Ainda vai demorar um pouco para essa turbulência passar. Só que, quando passar, acredito piamente que estaremos melhores.

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Mesmo sabendo que, neste momento, nenhuma palavra consegue amenizar a dor, esta coluna quer manifestar condolências a toda nação alviverde (da qual cada um de nós hoje faz parte) pela tragédia. #ForçaChape

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