Insistência no modelo fracassado
Sexta, 20 de Janeiro de 2017

Já há uma década e meia, os meses de janeiro tradicionalmente são marcados pelo início do reality show Big Brother Brasil. Sem um roteiro exato (a não ser o estabelecimento de provas por liderança), o objetivo do programa é mostrar “pessoas comuns e reais”, agindo sem filtros, com ações potencializadas pela situação de “confinamento”, pressão pela chance de ganhar um prêmio milionário, e convivência apenas com as mesmas pessoas até o fim do programa. Para delírio do público, a miséria humana é exposta visceralmente e propagandeada pela edição do programa, blogs e conversas de vizinhança.

Nas últimas semanas, pudemos ver na TV outra espécie de reality show, o da violência gerada pelo confronto de facções pelo domínio de presídios. Batalhas em tempo real, com sangue real, geraram bastante audiência para os canais e programas informativos. Como se fosse um filme épico da Sessão da Tarde, em que exércitos medievais se enfrentam, foi possível ver em detalhes o confronto entre facções munidas de paus e pedras, sem intervenção policial, na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, onde no final da semana passado morreram 26 presos. Cobertura com direito à mesa redonda formada por jornalistas e especialistas, repetição de imagens, etc.

As penitenciárias se transformaram em verdadeiras arenas romanas, em que (grande parte do) o público aguarda por um desfecho com mais sangue derramado. Que pode ser – como tem ocorrido até agora – na disputa entre os próprios presos ou, como se prenuncia, com a participação de forças policiais. Ou ainda de soldados do Exército, conforme ofereceu o ex-vice-presidente.

Não sei se as medidas do Plano Nacional de Segurança Pública que o governo federal anunciou (construção de presídios de segurança máxima, por exemplo) serão suficientes. Podem amenizar o estrago no curto prazo, mas é difícil crer que resolverá. Não é uma culpa exclusiva do atual governo, porque há décadas se prevê o colapso do sistema prisional brasileiro, e ninguém fez nada de vulto (salvo uma que outra ação localizada aqui e ali).

Procurei no pacotão anunciado por Temer algo que desse alguma esperança de que o crime passará a ser combatido de forma humanizada, a partir de educação e condições dignas para as comunidades em situação mais crítica, por exemplo. Não achei nada. Achei coisas como construção de paredes de isolamento, vagas e mais vagas em celas, vigilância eletrônica e uso da força policial. Ou seja: é mais do mesmo, a continuação do mesmo projeto fracassado de segurança que vem sendo usado há séculos. Agrada muito a quem acha que “bandido bom é bandido morto”. Pode até servir para os atuais presos. Porém, para a sociedade amedrontada pela violência, não dá garantia alguma de que haverá ressocialização efetiva, e muito menos de que novos indivíduos não irão tomar o lugar daqueles que já atuam no mundo do crime.
 

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