A escolha de Fachin
Sexta, 03 de Fevereiro de 2017

A “bipolaridade” intelectual das redes sociais é algo que alguém um dia ainda vai precisar explicar. Durante a quarta-feira e a manhã de quinta, navegando pelo Twitter, era possível ler coisas como: “Vai dar Lewandovski ou o Dias Toffoli, para dar um jeito de livrar a cara dos petistas”, ou “certo que já está tudo montado para ser o Gilmar Mendes, para encobrir Temer, o PMDB e o PSDB”. Essas manifestações se referiam a escolha do novo relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal em substituição ao falecido Teori Zavascki. A presidente do STF, ministra Carmen Lúcia, decidiu que os processos deveriam (por sorteio) ficar com um dos ministros da segunda turma, a qual pertencia Teori. Além dos três citados acima, as opções poderiam ser Celso de Melo ou então Edson Fachin, que solicitou para passar a integrar.

Após grande expectativa, eis que por coincidência Fachin foi o sorteado. Foi o que bastou para que alguns “seres iluminados” passassem a criticar a escolha. Talvez muita gente tenha se decepcionado porque no seu interior desejava que o escolhido fosse mesmo um daqueles três rotulados como tendo “lado definido”. Ficando os processos com Fachin, ambos os lados acharam motivos para reclamar. Além de ser aquele com menos tempo no STF, Fachin foi indicado por Dilma, tinha a simpatia da ex-ministra e senadora Gleisi Hoffman, e até mesmo da CUT (que o indicou para a Comissão da Verdade no Paraná); porém, foi decisivo na sessão que votou sobre o rito de impeachment da própria ex-presidente.

O novo relator da Lava Jato talvez seja, entre os atuais dez ministros, o que tenha características mais semelhantes a Teori, por ser moderado e discreto. Talvez seja justamente isto que tanto apavora algumas pessoas: o fato de que todo o processo possa ser julgado por alguém que busque a isenção. Reconhecer essas qualidades em Fachin obriga aqueles que gostam de grenalizar a ter que admitir que (em caso de condenação) alguém do lado para o qual torce tenha cometido crimes, que é tão corrupto quanto os adversários aos quais acusa. É ter que reconhecer que pode acabar sendo feita justiça. E, caso isso ocorra, pode tirar toda a graça que encontraram em discutir política de maneira emotiva, desinformada, irracional, radical e cega. Ter que admitir que a escolha de Fachin para substituir Teori foi a melhor dentro do possível significa, ali na frente, ter que dar o braço a torcer. E isto é o que provoca mais calafrios em quem faz parte de um destes dois grupos.

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Pior do que a “bipolaridade” de quem adotou como hobby atuar como inquisidor virtual de políticos de campos opostos, são aqueles que torcem pela morte de outros seres humanos. Me refiro a ex-primeira-dama, Marisa Letícia Lula da Silva. Lamentável e deprimente o nível de alguns (milhares) comentários que estavam postados para quem quisesse (e tivesse estômago para) ler. Se Lula, ou até mesmo ela, cometeu crime, a Justiça dirá e vai condenar. Isso vale para qualquer um. Comemorar a morte de alguém como se fosse Hitler ou Osama Bin Laden não é lá algo cristão.

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