Devíamos estar acostumados
Sexta, 10 de Fevereiro de 2017

Era bastante óbvio que a indicação que o presidente Michel Temer faria para o Supremo Tribunal Federal patrocinaria uma grande polêmica. Praticamente qualquer nome que fosse escolhido seria cercado de suspeitas, dado o momento político brasileiro, em que vários estão ou na cadeia ou sendo investigados (e dentro os vários, muitos do partido de Temer). Imagino o que o ex-vice-presidente tenha pensado algo do tipo “já que vão falar, vou colocar quem eu quero”. E assim surgiu Alexandre de Moraes, filiado ao PSDB e amigo próximo de Temer (inclusive seu ministro da Justiça e Segurança Pública).

Aparentemente, não fosse o fato de estarmos próximos dos julgamentos da Lava-Jato, seria um nome com pouca contestação, dado que está dentro dos critérios. E eis que surge o principal problema: os critérios. Se a Constituição Federal diz que os onze ministros do STF são indicação presidencial, paciência. Podemos espernear, reclamar, xingar, que nada vai adiantar. Sempre foi assim, e ninguém que deteve o poder para mudar até hoje sequer tentou. Só para recordar, dos atuais 11 ministros (já contanto Alexandre de Moraes, cuja sabatina no Senado não deve impedir sua posse), sete foram indicados ou por Lula ou por Dilma. E a indicação do ex-ministro é bem semelhante à que Lula fez em 2009, quando escolheu o ex-advogado do PT, Dias Toffoli, para a vaga. Dois jovens, com algum tipo de vínculo partidário, que entre os casos para julgar envolvem políticos. Antes, o Mensalão. Agora, a Lava Jato.

A cada indicação presidencial, seja para o STF ou para órgãos como o Tribunal de Contas da União, sempre se fala que este modelo está errado. Porém, como serve a classe política, nunca é alterado. O próprio Alexandre Moraes escreveu que entende que seria preferível um modelo em que os ministros fossem escolhidos a partir de um rodízio entre os três poderes, e que fossem vetados os que exercem cargos de confiança durante o mandato do presidente da República em exercício, evitando uma “demonstração de gratidão política”. Quando sua vez chegou, nada disso o impediu de aceitar alegremente a “missão”.

Temer assumiu o ônus das suspeitas, o que não é de se estranhar, dado o grande número de investigados acolhidos nos gabinetes ministeriais. O último, Moreira Franco, nomeado para a Secretaria-Executiva o Programa de Parcerias de Investimentos (e para ter foro privilegiado), apesar de ter sido citado dezenas de vezes nas delações da Odebrecht. Se o povo reclama de um lado, por outro Temer recebe vários tapinhas nas costas dos mais próximos o elogiando pelo “excelente trabalho”.

Como cidadão, é obvio que fico enojado pela falta de moralidade, por ter que assistir manobras feitas à luz do dia, com divulgação em rede nacional, e constatar que elas são absolutamente normais. Causa um rebuliço no estômago principalmente saber que as “regras do jogo” estão sendo “respeitadas”, e que seguem o mesmo pragmatismo de sempre. A escolha de Alexandre de Moraes é apenas mais uma dentre tantas ações que consideramos erradas. Devíamos estar acostumados.

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