O canto da sereia
Sexta, 10 de Março de 2017

É claro que eu entendo o argumento de quem se manifestas querendo uma intervenção militar. Não concordo de forma alguma, mas consigo compreender. Em geral, essas pessoas querem resolver os problemas brasileiros com urgência – que são sim urgentes. Neste Estado "Burocrático" de Direito (troquei "Democrático" por "burocrático" de propósito), as coisas demoram mesmo a andar. As principais reformas (trabalhista, tributária, previdenciária, política, etc) estão sendo prometidas há décadas e não saem do papel. Para construir um pontilhão qualquer numa comunidade do interior é preciso aguentar um longo processo de licitação. Há burocracia exagerada até para o poder público conseguir comprar papel higiênico para as escolas. É realmente irritante.

Por toda essa vagarosidade, a Democracia é quem tem levado a culpa. Se as reformas não saíram do papel até hoje, realmente é culpa da Democracia. É porque qualquer cidadão olha para as propostas e não gosta, reclama para o seu deputado, que fica com medo de perder eleitores caso vote a favor, e – sabemos - uma grande parcela de deputados tem medo de não se reeleger e assim derrubam qualquer proposta antipática. No mínimo atrasam bastante o trâmite dos projetos de lei para negociar o voto por algo para suas bases (os mais honestos) ou para seus bolsos (os mais corruptos). Em compensação, se não sai para melhor, as reformas também demoram para sair para pior. Ainda assim, eu prefiro ter o direito de chiar bastante contra algo que eu não goste do que ter que engolir goela abaixo.

Neste período em que temos a sensação de que quase todos os políticos vão parar na cadeia, é muito compreensível pedir por uma intervenção. É mais rápido do que confiar nas instituições (cujo "tempo" é diferente, pois não se renova de quatro em quatro anos). Porém, se isto ocorre, é graças ao tal amplo direito de defesa. E isto, realmente, só existe numa democracia. Em outro regime, não são necessárias provas para prisões, torturas ou execuções.

Eu sei, você que é a favor de uma intervenção para "limpar essa corja" e "moralizar o Brasil" vai me dizer que seria "só por um período estabelecido". Da última vez, até quem achou que seria o candidato a presidente apoiado pelos militares – Carlos Lacerda – foi enganado. E o que começou em 64, só terminou em 88. E tem outra: com uma intervenção efetivada, quem é que iria bater na porta dos generais dizendo que "é hora de vazar"? Eu sinceramente não teria coragem. Por isso, faltando um ano e sete meses para o próximo pleito presidencial, estou preocupado com os amigos que pensam assim. Que essa pressa pela moralização não se traduza naquilo que pode ser um dos maiores engodos da história política do país (começa com Bols...). A ânsia por querer resolver tudo de uma vez pode levar a cair no canto da sereia. E a lenda diz que marinheiro que ouve a sereia se afoga.

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