Os bodes vão resolver
Sexta, 17 de Março de 2017

O mundo político é composto de vários jargões. Um deles é o chamado “bode na sala”, expressão esta que vem de uma espécie de parábola, que é mais ou menos assim. O pai de uma família pobre que vivia numa casinha pequena reclamava da falta de espaço. Então, um sábio sugeriu que colocasse um bode na sala. Uma semana depois, esse pai se queixava ainda mais por causa da presença do bode. O sábio então, disse para que devolvesse o bode. Uma semana depois, esse mesmo pai estava muito feliz porque o bode tinha partido. A moral da história é que uma mesma situação que antes parecia ruim, pode parecer muito boa, só depende do ponto de vista.

Na prática (da política), colocar bodes na sala é uma estratégia bastante comum. Por exemplo: o Governo do Estado quer privatizar a CEEE, a Companhia Riograndense de Mineração e a Sulgás. Uma grande parcela da população (e dos políticos) resiste à medida. Então, se fala em privatizar o Banrisul e a Corsan. Na comparação, a impressão de que a venda destas duas foi impedida torna a ideia de que se desfazer das três primeiras seja bem menos desagradável.

Em nível federal, discute-se a Reforma da Previdência. Hoje, ela é classificada por grande parcela da população como um ato de extrema crueldade de Temer, por estabelecer a idade mínima de 65 anos e tempo de contribuição de pelo menos 49 anos para que o contribuinte possa receber o benefício de forma integral (que, para ocorrer, obriga que alguém comece a contribuir a partir dos 16 anos e nunca seja demitido). Do jeito que está, não será aprovada no Congresso. Porém, com uma concessão aqui e outra ali, suavizando a atual monstruosa embalagem, passará, e consigo trará a falsa impressão de grande conquista para quem protestou e, principalmente, para os políticos que apresentaram as emendas “salvadoras”.

Por que esta tática é tão frequente, e utilizada por chefes de Executivo de todos os cantos do espectro político? Em primeiro lugar, como já foi dito, para transformar aquilo que parece um grande problema em solução. Porém, carrega consigo outra faceta: a de que discutir seriamente uma proposta não faz parte da conduta de grande parte dos nossos representantes. Discutir uma reforma que fosse aceitável desde o início não traria tantas manchetes e, para piorar (para o Governo), outros tipos de concessões teriam que ser feita. Por analogia, significa algo como um consumidor optar por comprar uma calça por R$ 100, que antes custava R$ 150 na loja X, ao invés de comprar o mesmo produto, que na loja Y sempre custou R$ 80. A sensação de que se levou vantagem é muito maior.

Entretanto, há nesta prática um efeito colateral: barganhando se consegue chegar a uma situação em que a vantagem é máxima? Como saber qual é o ponto crítico de concessão que um governante pode chegar? Não raro, o cliente fica satisfeito muito antes de chegar ao máximo do desconto que o vendedor aceitaria. É só um palpite, mas é a sensação que eu tenho do que vai acontecer. Aqui e lá.

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