O Rio da minha imaginação
Sexta, 31 de Março de 2017

A Operação O Quinto do Ouro, que prendeu na quarta-feira nada menos do que cinco entre sete conselheiros do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro é, a meu ver, o capítulo mais representativo da onda de operações policiais que combatem os crimes de colarinho branco. Não apenas por ser impressionante o fato de a grande maioria dentro de um dos principais órgãos de fiscalização e controle de um Estado, ser composta por corruptos. Afinal, desde o Mensalão, está escancarado que as maiorias, em geral, cobram um preço. Eu considero esta operação um símbolo mesmo por se tratar do Rio de Janeiro.

Desde pequeno, eu criei uma péssima impressão sobre as pessoas públicas e a sociedade carioca. Nada a ver com o povo ou com as paisagens, que são fantásticas. Porém, sempre vi os vilões das novelas da Globo morarem numa cobertura no Rio. O jeitinho brasileiro, na minha imaginação, sempre teve a forma corpórea de um carioca – o Zé Carioca. Nas aulas de história também, principalmente quando o Estado ainda era a capital federal – tanto nos tempos do Império quanto da criação da República. No cinema, Cidade de Deus, Tropa de Elite e até filmes históricos, como Mauá, deixam péssima impressão. Tráfico de drogas, jogo do bicho, milícia. Na Literatura, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e os romances realistas de Machado de Assis, reforçavam a impressão. No futebol, a CBF fica no Rio, onde cartolas como Eurico Miranda mandam e desmandam em clubes há décadas. Ah, sem esquecer os políticos daquele Estado (Eurico é um deles)! Por mais que tenha um que outro que eu admire, são nomes que se perdem entre populismo e corrupção.

Confesso: inconscientemente, eu criei um preconceito gigante contra a capital fluminense, mesmo que conscientemente eu compreenda que isto ocorreu também pelo fato de ser centro cultural e político por tanto tempo deste país. E, logicamente, não sou idiota para crer que as demais unidades da federação não sejam tão recheadas de líderes corruptos quanto. Faltaria espaço até para citar cada caso. É fato que o Rio carrega nas costas – hoje juntamente com Brasília – uma fama que é nacional. Acho que é por isso que não consigo ver a mesma “grandeza” entre desbaratar um esquema criminoso no Acre, no Maranhão, ou mesmo no Rio Grande do Sul, do que este na ensolarada antiga capital brasileira, onde se imagina que a cultural farra de incorreções passou batida por 500 anos. É uma flechada na Medusa!

Falta muito? Claro que falta! Sequer acho que a Lava-Jato vai consertar o país. No máximo, vai provocar a grande fatia daqueles que estão dentro dos círculos do Poder a adotarem práticas mais discretas e moderadas. Ainda assim, não nego que dá uma felicidadezinha de ver o crime não compensando. Ao menos para mim, alimenta a convicção de que trabalhar duro e agir corretamente ainda é a melhor opção.

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