Os fins e os meios
Sexta, 28 de Abril de 2017

A semana foi, novamente, de embates (“debates” já morreu) sobre as reformas trabalhistas e da previdência. Creio que ninguém ignora o quanto ambas são necessárias. Difícil mesmo é achar pontos que agradem a todos. Aí que vem o problema – e o motivo pelo qual declarei morto o termo “debates”: ninguém quer dialogar, negociar, ou o que for. E os motivos estão muito, além do que está escrito nos projetos de lei.

A oposição não quer a reforma de jeito algum. Escondido entre as afirmações de que “vão prejudicar o trabalhador”, está um ponto muito mais sensível: a alegação de que Temer não tem legitimidade para fazer qualquer coisa, pois não deveria ser presidente. É simples assim. Basta circular em meio a maioria das manifestações contra as reformas. Quase todas são organizadas por entidades com alguma ligação com o PT ou, no mínimo, com a autointitulada esquerda. Sentar, conversar, negociar, debater, é impensável. Obviamente, nunca na história nenhuma reforma foi ou será feita sem resistências, com unanimidade. Não tem como ganhar em tudo o que se deseja. Isto os líderes sindicais sabem. Por isto, vejo que o objetivo principal não é barrar a reforma. É ganhar corpo contra Temer. E o fato das reformas terem sido gestadas sob uma presidência anterior reforça esta ideia.

Além disto, há um outro “tempero” nesse molho: a previsão de acabar com a obrigatoriedade da contribuição sindical apavora essas entidades, acostumadas a “gerir” grandes montantes. O temor é de que os sindicatos morram de inanição. Agora, uma provocaçãozinha (nem tão) despretensiosa: se são tão importantes e fundamentais, porque há este medo? E por que não tentar negociar este ponto com os deputados, senadores e presidente? Só posso crer que por jogo político. Pois ambas reformas vão acabar passando. Se com negociação seria considerado ruim, sem nenhuma, será ainda pior.


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Aqui cabe uma observação sobre legitimidade. Apesar de estar atolado em denúncias até o pescoço, ninguém questiona os avanços promovidos por Lula. Os avanços deixaram de valer após todas as investigações da Lava Jato? Claro que não. Bem ou mal, concordando ou não (eu escrevi nesta coluna que não concordava), a presidência está nas mãos de Temer. Corrupto ou não (isso só a Justiça vai poder dizer, tanto sobre ele quanto sobre Lula), o Palácio do Planalto está sob o seu comando. Logo, há legitimidade. “Ah, mas ele é impopular, quase ninguém aprova o governo dele”. E quem disse que um governo com níveis estratosféricos faz reformas? Aqui, neste país, está mais do que explícito que aprovação alta significa não reformar nada. Ninguém até hoje foi sério o suficiente para promover alterações profundas. Não é à toa que estamos falando sobre isto há mais de 20 anos. Por que Temer então faria? Porque ele não tem nada a temer (piadinha irresistível), e quer ser considerado mais do que um vice golpista. Se para a maioria vale a frase “os fins justificam os meios”, para Temer, os meios justificam os fins.

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