A transparência e a espetacularização
Sexta, 12 de Maio de 2017

Neste mundo cada vez mais midiatizado, todos os dias vemos a linha sensível entre a transparência e o espetáculo ser atravessada. Como efeito, temos uma sociedade dividida entre “coxinhas” e “petralhas”; autoridades e comunicadores se promovendo pela indústria do vazamento e, as vezes, até por fofocas sem materialidade com roupagem de conteúdo exclusivo.

Com todas as ferramentas que temos a disposição para nos informar, é importantíssimo buscarmos o nível máximo de transparência de dados públicos que poderes e órgãos possam oferecer. Temos direito, afinal, porque se trata de algo público. O problema é o mau uso de dados e informações – conteúdo parcial, e não sua íntegra - que hoje fazem com que pessoas que são investigadas, aos olhos do público, já estejam condenadas, mesmo que esse mesmo público não tenha sequer buscado a informação completa.

O espetáculo lida diretamente com a vaidade. Seja do jornalista, que se desdobra por qualquer furo (e “qualquer” pode sim ter um sentido pejorativo), seja pelo político que usa os poucos minutos que tem direito na tribuna para chamar atenção e virar notícia, e até pelo juiz do Supremo, que alonga o seu voto para demonstrar conhecimento. Às vezes, tenho a sensação de que algumas posições mais “polêmicas” são propositais, uma isca para as lentes das câmeras. E, como para “aparecer” é preciso ser diferente, grande parte de nossas autoridades estão mais preocupadas com a “forma” de aparecer do que com aquilo que deveria ser o mais importante: o conteúdo.

A Lava-Jato é um grande exemplo. Ela se abraça ao espetáculo para despertar a ira pública e ganhar o apoio das ruas. Cada “vazamento” é um pacto sendo feito com a mídia, que em troca faz todo o esforço por inflamar um desejo cego por justiça – e que acaba se transformando, irracionalmente, em revanchismo. É compreensível que se queira pressionar aqueles que poderiam agir para atrapalhar os trabalhos. Contudo, ao extrapolar tanto os limites do que poderia ser considerado uma conduta normal, a operação está deixando alguns efeitos colaterais nem tão desejáveis.

Em primeiro lugar, para alimentar o desejo do público em “consumir” denúncias, da maneira como está se deslindando, tira qualquer possibilidade de manter o nome limpo de alguém que, por ventura, possa ser inocente. Além disto, coloca num mesmo saco “culpados” por ocorrências diferentes. Mas, digamos que todos os que apareceram nas listas sejam considerados culpados. Ainda assim, estes estarão recebendo penas duplas: a que deve ser imposta pela justiça, e aquela imposta pela sociedade, que se estende até a familiares do indivíduo condenado por corrupção.

Em segundo lugar, incentiva a “briga de torcidas”. Houvesse menos exposição, e talvez não percebêssemos defesas tão apaixonadas de determinados agentes, cujo sentimento compartilhado pode, ali na frente, trazer confrontos físicos graves. Não seria bom para uma sociedade dita democrática que ocorra linchamentos físicos (do linchamento moral as redes já se encarregaram).

Eu quero muito que a Lava-Jato passe o país a limpo. Que sejam condenados todos aqueles que tenham culpa no cartório. Porém, sem retirar direitos fundamentais de quem será julgado. Não se faz justiça por meio de “pequenas” injustiças.

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