Plebiscito? Quando?
Sexta, 02 de Junho de 2017

Sem conseguir uma garantia de número mínimo de votos para passar na Assembleia a PEC que retira a obrigatoriedade de plebiscito para a venda de estatais, o Governador José Ivo Sartori enfim optou pelo plebiscito. Meio atrasado, diga-se de passagem. Faltando um ano e sete meses para o fim do mandato, o governo tenta viabilizar esse processo de consulta aos eleitores às pressas. No mundo ideal do Piratini, a votação ocorreria em novembro. Se depender da oposição, deve ocorrer apenas junto às eleições do ano que vem.

Algumas coisas me incomodam nesse processo. A principal delas é que ninguém, de nenhum dos dois lados, quer ouvir o que o povo tem a dizer nas urnas. Isto fica nítido pela demora do governo, que fez de tudo para evitar o plebiscito. Fosse melhor planejado e essa medida poderia ter ocorrido junto às eleições do ano passado. Penso até que se perdeu uma grande oportunidade de aprovar essa proposta, dada a evasão de eleitores, e a opção – nos principais colégios eleitorais do Estado – por candidatos que tiveram seus discursos marcados por expressões como “responsabilidade fiscal”, “enxugar a máquina pública” e “priorizar as áreas fundamentais”.

Por outro lado, o papel da oposição é matreiro. Passou mais de um ano defendendo o plebiscito, e agora que o Governo opta por essa saída, não quer dar acordo para que seja realizado esse ano por ser muito caro. Entendo que a oposição desperdiça uma grande chance de fazer sua vontade prevalecer com apoio popular, já que um plebiscito em novembro, deslocado do calendário eleitoral normal, dificilmente mobilizaria a população. Certamente, os mobilizados seriam sindicatos e militantes contrários a gestão de Sartori, ou seja, os contrários as privatizações. Ainda assim, porque arriscar, né?

No fim das contas, todo esse imbróglio demonstra que nós praticamente não somos ouvidos. Ok, a culpa é também nossa, porque sequer exigimos um plano de governo de quem concorre, aceitamos respostas evasivas em debates e não participamos quando chamados (o baixo percentual de participação em consultas populares demonstra isto). Por outro, os nossos representantes mesmo preferem ter controle sobre as iniciativas. É muito mais “seguro” contar votos e negociar com 55 deputados estaduais do que colocar a decisão nas mãos de 8 milhões de eleitores.

Ainda encaramos a política com um viés de competição errado, em que prevalece menos a melhor proposta do que o grito. Não há governo que tenha coragem de colocar em votação projetos que sabem que não passarão. Na cabeça dos políticos, perder é demonstrar fraqueza, falta de liderança, fragilidade de apoio. Eu faço outra leitura: retirar projetos que se sabe que não passarão é desistir, e desistir é pior do que enfrentar.

Espero que não demore muito para que alguma luz ilumine as cabecinhas desses nossos representantes para que, numa reforma política, consiga-se estabelecer que, a cada dois anos, junto às eleições, as principais questões da sociedade também sejam colocadas na urna eletrônica para escolha da população. Tendo essa diretriz, seríamos poupados de debates que servem mais ao jogo político do que ao interesse da sociedade.

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