A espera
Sexta, 30 de Junho de 2017

Tenho tentado ser otimista nas minhas colunas. Aqui vai mais uma tentando olhar o copo meio cheio. É que, apesar de toda a instabilidade política sem precedentes, o país está até que bem estável economicamente. Enquanto a cúpula política se preocupa com investigações, gravações, defesas, ministros do STF, Moro, Dallagnol, TCU, Gilmar Mendes, TSE, impeachment, indicador de procurador-geral, etc, o país segue funcionando. Cá pra nós, nessa bagunça toda, é um tanto inacreditável que a inflação esteja controlada, que alguns índices da economia estejam lentamente sendo retomados. Começo a acreditar que aqueles que dizem que “quanto menos governo melhor” estão com a razão. Em outro sentido, claro (menos liberal, e mais institucional).

Claro, isso não quer dizer que está bom. Não mesmo. Porém está de uma forma que é suficiente para não ter uma massa gigantesca reclamando nas ruas (e olha que motivos para isto não faltam). Nesta sexta tem greve geral, e a esmagadora maioria da população vai trabalhar normalmente. Talvez porque a greve seja puxada por sindicatos, e daí já tem aquele rótulo de ter ligação com a esquerda, e tal. Mas ainda assim, segue na linha do que eu estou dizendo: a coisa não está ruim o suficiente para que se chegue a um consenso. A divisão está cada vez mais forte, cada um acha que uma coisa é mais importante do que a outra, e que o pessoal de Brasília e a Justiça que se entendam.

Não sei se é cansaço devido a três anos de escândalos atrás de escândalos. Parece que virou um hábito. Quem dera fosse mais a tranquilidade trazida pelo fato de termos confiança em Polícia Federal, Ministério Público e Justiça, do que a impressão de que não adianta nada fazer alvoroço. A pressão sobre os políticos é pequena perto da gravidade dos fatos. O nível das rusgas ainda se limita a redes sociais, aos vizinhos e às mesas de bar. Posso pensar que é porque o processo de “calejamento” foi o suficiente para conter os ânimos. E afinal tem aquela certeza de que ano que vem tem eleição, que tirar um para colocar outro igual não dá em nada.

Por essas e por outras, até não acho ruim. Acho que pode até ser preferível seguir esse ritmo do que provocar o sentimento de revolução como em 64, que levou ao regime militar; a decepção geral de 84, quando não passou o “Diretas Já”; a empolgação de 92 que derrubou Collor; a resignação de 2005, que manteve um governo por alguns mandatos apesar do mensalão; ou a precipitação que impichou Dilma. Desta vez, o troço tá sendo levado meio morno, meio em banho maria.

O que me chateia, nesse momento, é a falta de discussões de ideias, afinal, tudo está parado (na política). Não se chega a um consenso de nada porque está todo mundo esperando uma hora que se sabe que vai chegar, só falta alguém dizer quando e, principalmente, como. Nesse ritmo, cada um vai fazer o próprio trabalho, cuidar da própria família. A sensação que fica, já que nada vai mudar mesmo, é que assim se ganha mais.

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