Cultura do atraso
Sexta, 07 de Julho de 2017

Há quem diga que o RS é o Estado mais politizado do Brasil. Não há pesquisa que comprove isto, mas eu tenho certeza de que essa impressão é causada pela mania de polemizar tudo. Já olhamos desconfiados antes mesmo de ouvir uma notícia até o final. Se alguém faz uma afirmação num sentido, não demora para aparecer quatro ou cinco questionando. “Implicar” tinha que ser um dos primeiros artigos da Constituição Estadual.

Vamos a um fato: o governo do Estado anunciou concurso público para Brigada Militar, Bombeiros e Polícia Civil. A previsão é de que, ao todo, serão mais de 4 mil vagas. Aí grenalizou. De um lado, pessoas se vangloriando do maior concurso público da segurança nos últimos 30 anos. Do outro, as pertinentes questões que vão na linha da desconfiança, de questionar como pagar os salários, se já são 17 meses ininterruptos parcelando. É dose!

O mais engraçado é que ninguém discute que faltam servidores na área de segurança. Que mesmo acrescentando esses 4 mil futuros nomeados, ainda assim o número total estará muito aquém do que seria o ideal. A preocupação única e exclusiva é 1) se for simpático ao governo: garantir a paternidade do “maior concurso”, como se os governos anteriores não tivessem contratado ninguém; 2) se for oposição: depreciar a iniciativa.

Sartori pode ser acusado de estar pensando na reeleição? Pode, assim como todos os antecessores. Soa incoerente para quem até aqui passou dois anos e meio reclamando dos problemas financeiros? Nem tanto, já que o grande problema do Estado, acima de tantos outros tão importantes quanto, é o da falta de segurança. No interior, toda a semana se houve notícias de caixas eletrônicos sendo explodidos, com bandidos se protegendo por meio de cordões humanos. Nas maiores cidades, assassinatos todos os dias, na maior parte causados pelo tráfico de drogas. Pensa num índice, num tipo de violência, que perceberá que os números estão na estratosfera.

Para mostrar que o sujo e o mal lavado são cegos, uso aqui dois argumentos que li por aí. O primeiro é de um sujeito que diz que esse concurso deveria ser proibido por se tratar de “populismo”, já que as eleições estão próximas, e lembrou que Sartori vetou por um longo tempo a nomeação de policiais ordenadas pelo ex-governador Tarso. O segundo é de um gaiato que recorda que Tarso ordenou a nomeação no apagar das luzes do próprio governo, já tendo sido derrotado na eleição, que essa atitude foi “populista” da mesma forma que foi aumentar o piso regional (que não é o governo que paga) muito acima da inflação, e de conceder reajuste para os servidores da segurança para serem pagos a partir do fim do seu governo. A preocupação com a segurança, que é o grande problema, não está em nenhum dos discursos.

É claro que fica difícil de ver o RS avançar desse jeito. É preciso quebrar essa cultura de desvalorizar aquilo que o outro fez. Basta de ser melhor porque os outros são piores. Mandatos expiram, mas o Estado vai continuar existindo.

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