Lula: entre "o cara" e o condenado
Sexta, 14 de Julho de 2017

É triste ver a condenação de Lula e, ainda mais deprimente, as reações que a decisão trouxe. Por mais que os fatos indiquem que o ex-presidente cometeu irregularidades, lembro do que sua figura representava há alguns anos. Lula foi chamado por Obama de “o cara”. Foi uma referência para toda a América Latina, surfou em níveis de popularidade gigantescos e foi bajulado pela grande maioria das lideranças que agora vomitam, sem olhar para o próprio rabo, palavras de ordem que, neste contexto político, não fazem sentido.

Lula se perdeu no caminho. O ego foi tão inflado que se sentiu no direito de se “autopremiar”, se conceder exceções. Algo do tipo “tirei milhares de brasileiros da miséria, então eu mereço um sítio e um tríplex”. Confundiu-se com o tipo de relações que pode ou não ter com pessoas interessadas na amizade de alguém tão influente. Sem falar que ficou cego pela ambição de obter poder perpétuo para o seu partido, que conquistado através de cooptação de figuras que estão entre as mais corruptas da história da política brasileira.

Ainda assim, eu me pergunto: onde foi que Lula e o PT erraram? Eu sei que foram muitos erros, mas o que foi mais crucial para que toda uma base, que em certo momento pareceu que sempre estaria ali, migrasse para o outro lado? Suspeito que o embrião de tudo foi exatamente o caminhou que pavimentou a chegada ao primeiro mandato: se sujeitar a coalizões que de comum só tinha o interesse eleitoral, pois era muito “eclética” em intenções programáticas. Contudo, foi a indicação de Dilma como sucessora que, creio, enfraqueceu o partido. Foi aí que o poder começou a se transferir. Lula saiu mais fortalecido do Mensalão. Dilma sucumbiu às pedaladas. Nem só pelo fato da ex-presidente não ter uma carreira dentro da política via urnas e ter furado a fila de sucessão do próprio PT. Nem tanto pela crise econômica que há três anos afeta o país, ou às promessas de campanha que posteriormente se inverteram. Creio que foi mais pelo jeito duro e pouco eloquente de Dilma, muito diferente do amistoso e “amigão” Lula.

O pior de tudo é que não dá para culpar o Congresso pela condenação de Lula. Porque o Congresso tem dessas coisas de não seguir a lógica. Lula poderia ter caído com o Mensalão, como Dilma deveria ter ficado apesar das pedaladas. Temer já deveria ter sido cassado, mas já há o indicativo que isso não ocorrerá pelo menos antes de agosto. Logo, o tom dado à condenação de “preso político” é desmedido. Ter sido condenado não indica que Lula é o mais corrupto da história da República. Creio que há muitos que cometeram crimes piores. Porém, a Justiça diz que ele errou e, se errou, não é diferente de nenhum outro brasileiro que tem que obedecer a lei. Resta torcer para que mais gente (que mereça) tenha o mesmo destino. Ainda assim, nenhum vai conseguir o que o ex-presidente conseguiu: ser o único político que terá uma grande massa acreditando nele e lamentando sua condenação, por mais culpado que se possa provar.

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