O senso de democracia tupiniquim
Sexta, 21 de Julho de 2017

Sim, é feio, errado, imoral e constrangedor o que Temer está fazendo para se manter no poder, como trocar integrantes na Comissão de Constituição e Justiça para derrubar o parecer favorável para prosseguir a denúncia da Procuradoria Geral da República. Mais inaceitável ainda é acenar com a liberação de emendas parlamentares para manter uma base numerosa o suficiente para que não se atinja no plenário o número mínimo de 342 votos pela abertura da investigação contra Temer. Com o auxílio de ministros que também são deputados e vão retomar o cargo por um dia para ajudar o governo, obviamente. E nem mencionamos a distribuição de cargos de confiança para quem permanecer fiel.

É mesmo lamentável. Porém, não há novidades nesse tipo de ações. Recentemente, Dilma adotou as mesmas práticas, só não soube articular o suficiente para obter êxito. E Lula, e Fernando Henrique, etc. Não há governo que não tenha em seu histórico esse tipo de atitude. Qualquer projeto com teor impopular, ou mesmo “apenas” polêmico, teve movimentações nesse sentido. Talvez não tão explícitas, mas uso de distribuição de cargos (e até ministérios), liberação de emendas parlamentares, ameaças de expulsão de rebeldes, etc., são absolutamente normais no Congresso. Não foi Temer quem inventou. Ele apenas não tem cerimônia nenhuma para se aproveitar.

Esse tipo de prática não se limita a Brasília. A iniciação política brasileira é assim. O importante é vencer de qualquer jeito. Não importa se é preciso usar virada de mesa na eleição que escolheu um diretório municipal, ou se por meio de liminares garantir uma vaga para concorrer a deputado estadual, ou extraviar listas de votações de alunos na eleição ao DCE, ou montar executivas provisórias em cima da hora para garantir uns votinhos a mais na escolha para o presidente estadual do partido, ou impugnar uma chapa por qualquer motivo na eleição do clube social, do sindicato ou para síndico do condomínio. Já presenciei “negociações” até em escolhas de líder de turma ou do paraninfo de formandos. É prática generalizada, e é até comum ouvir do lado vencedor palavras orgulhosas pela própria esperteza.

Não é só Temer. Somos todos nós. É um produto genuinamente nacional esse senso de democracia tupiniquim. Há até quem defenda esse predomínio da esperteza, da lei do mais forte, afinal, “as regras do jogo estão aí para ser usadas”. Eu discordo de tudo isso, porém é da democracia aceitar que alguns indivíduos pensem assim. Por isso eu fico surpreso com quem fica surpreso quando isto ocorre em Brasília. Porque, por mais inconsciente que seja, é hipocrisia achar erradas as práticas quando está no lado que perdeu e se exibir quando o próprio lado ganha.

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Sobre a morte de Paulo Sant’Ana. Foi com ele quase tudo o que restava de um jornalismo romântico que levou tantos – inclusive este colunista – aos bancos das faculdades de jornalismo.

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