“Guerra de bugio sem fundamento”
Sexta, 04 de Agosto de 2017

Foi constrangedor assistir à sessão de votação da Câmara dos Deputados que barrou a autorização para que o presidente Temer fosse investigado. O resultado, obviamente foi a cereja do bolo que provocou dores de estômago em muitos (inclusive neste colunista). Porém a conduta dos parlamentares (de grande parte deles) é algo que supera a pior das “turmas do fundão” da pior das escolas do país. Empurra-empurra, gritos, justificativas injustificáveis, argumentos “pra torcida”, deputado caindo no chão, ameaças de vias de fato, corte de microfone durante a expressão de votos etc.

A impressão (diria certeza) é de que se foi o tempo em que um político tentava demonstrar conhecimento, polidez, inteligência e até cordialidade para discordar. Em tempos de “mitagens”, em que a internet louva aqueles que forem mais brutais, ferozes e agressivos para rebater ideias e impor (sim, impor, algo inaceitável na democracia) sua vontade, fica claro que o objetivo principal de alguns lá dentro é aparecer “tocando a maior zona” possível. É tão lamentável quanto compreensível, afinal, quando se depende de votos para ficar mais quatro anos, e parecer competente e preparado para o cargo não rende a mínima fração de votos comparado a um vídeo aleatório compartilhado milhares de vezes nas redes sociais.

Creio que esse comportamento explica muito porque, para quem está lá pouco importa se Temer é corrupto ou não. Até mesmo a oposição perde toda a credibilidade com sua atitude revanchista, raivosa e “dona da verdade”. Postura essa, aliás, que não nasceu no impeachment da Dilma: está na origem dos movimentos e em sua própria ideologia. A situação então, nem se fala, pois usou da mesma cara de pau para retirar Dilma e para defender Temer, como se fosse (e aposto que muitos acreditem piamente nisso) os mocinhos livrando o país dos bandidos.

O pior de tudo nem foi o resultado. Isso passa. Não é a primeira vez que o povo engole uma derrota desse tamanho. Mais duro mesmo é sentir que a esperança de que alguém capaz e realmente interessado no país (e não no poder) surja como opção de voto daqui a 14 meses está minguando. E muito disso decorre do fato que, desde o início da atual legislatura, a preocupação principal em Brasília é 1) se salvar; 2) derrubar o adversário. É a “guerra de bugio sem fundamento”, descrita pelo ex-governador Olívio Dutra. Se ninguém começar a dar o exemplo, se ninguém recuperar um pouco da razão, e se essa divisão rancorosa persistir, o quadro do ano que vem vai ser ainda pior. Eu estou quase num ponto em que, se depender de ser convencido por algum dos lados da maneira em que estão postos, vou torcer por w.o.
 

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