Sobre a desunião
Sexta, 18 de Agosto de 2017

Durante o regime militar, houve várias ocorrências de jornais “empastelados”, ou seja, que tiveram que colocar tarjas em algumas notícias ou substituí-las por força da censura (em protesto, redações chegaram a colocar receitas de bolo como protesto velado). Hoje em dia, tenho me censurado para evitar ler determinadas publicações. Creio não ser o único a adotar essa prática. No meu caso, fujo de radicalismos. Tudo que trata um lado muito melhor do que outro, quem trava luta de “bem x mal” perdeu a minha audiência.

Não é a primeira vez aqui que escrevo sobre a divisão crescente da sociedade. Estamos fazendo um jogo que nos foi proposto por pessoas cuja única proposta é o ódio. A raiva cega. Eles sabem disto. Você vai votar contra alguém, e não a favor daqueles valores que deveria valorizar.

Enquanto nos desunimos, brigamos, xingamos, proporcionamos um ambiente favorável para que os “nossos líderes” adotem políticas públicas injustificadas, ou ainda pior, mal justificadas. Daí ao acessar as redes sociais se lê comentários do tipo “só comunista que não quer a reforma trabalhista”, que “direitos humanos é para defender bandidos”, ou que “o golpe contra a Dilma foi articulado pelos capitalistas americanos”. Assusta pensar que este é o tipo de ideia que está circulando com força. Que a conspiração prevaleça sobre um mínimo de sobriedade para discutir as coisas.

Em épocas de divisão, ganham aqueles que permanecem unidos (numa postura radical). Um exemplo vem da tal “reforma política” que se negocia no Congresso. Um dos grupos mais interessados em fazer o distritão passar é o da bancada evangélica, que já faz contas para assumir mais de 20% das cadeiras do Legislativo. Quero aqui, antes de mais nada, esclarecer que não tenho nada contra a fé de ninguém. Porém, valorizo o fato de o Brasil ser laico de direito, logo suas políticas públicas devem vir despidas de motivações religiosas. Impor o “estatuto da família” ou a “cura gay” viola o direito de muitas pessoas. Não se pode enfiar algo goela abaixo, sobretudo quando a pauta trata de liberdades individuais. Uma coisa é seguir dogmas livremente, indo até o templo. Outra bem diferente é tentar transformar a bíblia em lei (interpretando-a de forma oportunista).

Cunha era da bancada evangélica, assim como outros tantos denunciados em escândalos de corrupção. São os únicos? Claro que não (e é injusto dizer que todo e qualquer político evangélico é aproveitador e corrupto). Porém são aqueles que, por serem identificados com uma religião, se escondem por trás de uma pretensa aura de santidade (aproveitando-se da fé e da boa vontade de pessoas verdadeiramente religiosas) para se financiar e para atacar grupos minoritários e impor restrições a liberdades individuais, em vez de garanti-las e ampliá-las.

E não é só a bancada evangélica que me incomoda. Vale para a bancada ruralista e para os grupos de extrema esquerda (sim, dona esquerda, nem vocês têm direito a fazer quem pensa diferente a engolir algo goela abaixo). Se o centrão do Congresso é ruim, por ser movido a populismo e por não tomar posição, pior ainda é termos uma maioria - de qualquer um dos lados - que se fortaleça por pensamentos antidemocráticos.

Comentários