Sexta, 22 de Dezembro de 2017 às 13:23
O empoderamento acontece através do conhecimento
Idealizadora do projeto Meninas Olímpicas, professora Nara Bigolin recebe troféu por sua atuação em busca da equidade de gênero na educação
Por: Rafael Franceschet
A grande vencedora do troféu da categoria Educação da Mulher foi a professora da UFSM de Frederico Westphalen Nara Bigolin, idealizadora do projeto Meninas Olímpicas

Todo ano, a Assembleia Legislativa oportuniza o troféu Mulheres Cidadãs, que visa premiar e valorizar as mulheres que prestam serviço de excelência à sociedade gaúcha em sete categorias: Defesa dos Direitos da Mulher e Combate à Violência contra a Mulher, Educação da Mulher, Promoção da Participação Política da Mulher, Profissionalização e Geração de Trabalho e Renda para a Mulher, Atividade Comunitária em Prol da Mulher e Mulher na Cultura.

A grande vencedora do troféu da categoria Educação da Mulher foi a professora da UFSM de Frederico Westphalen Nara Bigolin, idealizadora do projeto Meninas Olímpicas, criado em 2016, que busca evidenciar e incentivar a participação de meninas nas olimpíadas de ciências realizadas em escolas do Brasil todo e do mundo. A solenidade de entrega dos troféus acontecerá em março de 2018, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

A mulher na ciência
Nara Bigolin, mestre e doutora pela Universidade de Paris, na França, iniciou sua trajetória acadêmica no fim dos anos 80, quando ingressou na graduação na área de computação. “Lembro que minha turma era composta por 60 estudantes e apenas seis eram mulheres, os famosos 10%, e isso não me incomodava. Vale lembrar que essa história dos 10%, que é uma das nossas bandeiras, define bem a nossa luta contra este número que não define a participação de fato da mulher brasileira na sociedade”, explicou. A porcentagem também equivale à mesma quantia de mulheres pesquisadoras em grandes centros de pesquisa e as eleitas em cargos políticos, como o exemplo da Câmara de Vereadores de Frederico, onde dos 11 vereadores eleitos, apenas uma é mulher.

Os dados são claros: o número de meninas que escolhe as ciências, em especial nas áreas de exatas e tecnológicas, é bem menor que o dos rapazes. No ano 2000, somente 20% do graduandos de física no Brasil eram mulheres. A mesma taxa nos Estados Unidos, no Reino Unido e em países como Japão e Suécia não chega a 15%. O começo da jornada, em geral, já é difícil por serem minoria, mas nos níveis seguintes a coisa aperta ainda mais.

Voltando aonde tudo começou, em 1988, Nara conta que na graduação não se questionava sobre o porquê do número de mulheres ser tão baixo comparado ao de estudantes homens. “Isso é muito comum, tão naturalizado que às vezes não percebemos e nem nos questionamos sobre isso”, disse a professora.

A luta começou
Em 2013, essa realidade foi confrontada quando Mariana Bigolin Groff, primogênita de Nara, recebeu a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Dois anos depois, o sentimento minoritário se intensificou quando, em 2015, a jovem estudante começou a participar dos treinamentos para as olimpíadas internacionais de matemática. “Nesta fase, de 25 participantes, apenas uma era mulher, Mariana. A partir desse momento começamos a analisar todas as olimpíadas e notamos que este número era igual ou inferior aos tais 10%”, expôs Nara, que ressaltou ainda que no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), existe apenas uma mulher de um total de 40 pesquisadores.

O que concluímos é que as mulheres se resumem a apenas 10% das pessoas que participam de pontas estratégicas na sociedade, ou seja, que tomam decisões e guiam caminhos para a sociedade seguir, ou seja, para todos seguirmos.

De Frederico Westphalen para o mundo
Foi baseada em toda essa vivência que no dia 26 de julho de 2016, Nara junto com suas duas filhas Mariana e Natália criaram o projeto Meninas Olímpicas, que desde o início visou contar e divulgar para todos que a grande diferença de oportunidades e reconhecimento se refletem diretamente nas questões que constroem a nossa sociedade.

O ponto crucial para necessidade da implementação do projeto foi quando a professora foi convidada para participar da semana dos treinamentos olímpicos da matemática e da informática, em que os melhores estudantes de cada área se reúnem para estudar e preparar-se para as próximas competições. “Percebi que era a única mulher entre os professores treinadores. Como as meninas poderiam continuar nas olimpíadas científicas se elas não têm uma professora que seja modelo para elas? Para se reconhecerem?”, questiona. A verdade é que nunca nos questionamos por que não temos a mesma quantidade de mulheres nos pontos estratégicos das áreas exatas e o projeto Meninas Olímpicas vem para questionar, abrir a mente e fazer as pessoas pensarem.

Os resultados já estão sendo colhidos. Na principal olimpíada do mundo, que neste ano aconteceu no Brasil, o IMPA implementou a criação do troféu com o mesmo nome do projeto, Meninas Olímpicas, uma forma de homenagear a iniciativa e evidenciar a participação de meninas nas olimpíadas científicas.

Além disso, em novembro de 2016, o parlamento gaúcho entregou uma homenagem às 13 meninas que conquistaram medalhas em olimpíadas de ciências exatas, entre elas as frederiquenses Giovana Pertuzzatti Rossato, Marcéli Melchiors, Mariana Bigolin Groff e Natália Bigolin Groff, integrantes do projeto. Outra homenagem aconteceu neste ano em outubro, e nesta, Nara também foi uma das homenageadas, assim como duas outras meninas Giovanna Ballen e Ana Julia Nedel. Mariana uma veterana, com quase 40 medalhas em olimpíadas científicas nacionais e internacionais, juntos com duas outras meninas olímpicas do Ceará, estão assumindo a coordenação operacional das Meninas Olímpicas.

Mulher Cidadã 2018 do RS, categoria Educação da Mulher
“Este prêmio só é possível porque a 18 anos eu optei pela maternidade. Deixei minha carreira de pesquisadora de Inteligência Artificial em Paris para voltar para o Brasil e ser mãe. Foi esta experiência que estreitou meu conhecimento com a sociedade e me fez tornar mais humana”, contou Nara, que dedica o prêmio aos três filhos: Mariana - 16 anos, Natalia - 13 anos e Lucas -11 anos. Nara foi indicada para o prêmio pela deputada estadual Manuela d’Ávila, que é uma defensora das causas das mulheres, já esteve em Frederico Westphalen para palestrar e que demonstrou seu agradecimento pelo projeto Meninas Olímpicas em várias ocasiões e entrevistas. Nara frisa que o projeto busca dar escolhas para as mulheres. “Que as mulheres tenham escolhas. Primeiro a instrução, o conhecimento, consequentemente o empoderamento e aí sim as escolhas. É na sutileza do cotidiano que a discriminação acontece, culturalmente imposta e inconscientemente reproduzida, e nós queremos dar uma basta nisso”. Para finalizar, Nara nos deixa um recadinho: “As minorias podem conseguir seu lugar através do conhecimento, informe-se e saiba seus direitos”, aconselha Nara.

Categoria Saúde da Mulher
Quem também vai receber a honraria da AL-RS, mas na categoria saúde, é a presidente da Associação Hospitalar Santo Antônio de Tenente Portela, Mirna Terezinha Brauks. Ela assumiu o hospital em 2006 em meio a dificuldades financeiras. Através da sua gestão, conseguiu tornar a casa de saúde uma referência no atendimento em diversas áreas. Recentemente inaugurou a UCI Neonatal e a UTI adulta, prevista para funcionar em março. O evento contou com a presença de autoridades como o ministro da Saúde, Alexandre Barros. Em relação à saúde da mulher, Mirna possibilitou a abertura de uma maternidade moderna e completa, a qual prioriza partos humanizados. Além de um banco de leite, central de partos, UCI Neonatal e da equipe multiprofissional, o setor disponibiliza exames, testes e atendimentos para as mães e recém-nascidos.

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