Quarta, 17 de Fevereiro de 2016 às 19:11
A odisseia por um livro
Felipe Freitag *
Por: Felipe Freitag

Por ter vivido minha infância e minha adolescência em uma cidade-aldeia (assim a chamo, pois sua população não chega a 3 mil habitantes), o tecido da minha experiência sociocultural é distinto do de muitos sujeitos nascidos e crescidos em grandes urbes. Estava eu, agora há pouco no centro de Santa Maria, a fim de cumprir com uma das minhas rotinas mensais (comprar meus psicofármacos) e passo em frente de uma livraria. Adentrei-a. Não contente com uma, fui a duas livrarias. Muito mais do que comprar livros, gosto de estar com eles: tocá-los, cheirá-los, em suma, senti-los. Eis que me deparo com O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder e minha mente toda se embaralha.
Como escrevi no início desse texto: minha cidade-aldeia trouxe-me certas peculiaridades do viver, inclusive do viver literário. Pode parecer inacreditável, mas somente fui ter um computador e internet aos 19 anos. Antes disso (2004 e 2005) tinha acesso a computadores e à internet na escola onde eu estudava e em uma lan house (2006, que era uma super novidade) da cidade. Lembro-me muito bem do dia em que, assistindo ao programa Sempre um papo, da TV Câmara, que entrevistava Gaarder, encantei-me com O mundo de Sofia e decidi que queria lê-lo o mais breve possível.
O ano era 2006. Vasculhei as bibliotecas da minha cidade e nada do livro. Então, fui até à “cidade grande” da região, Frederico Westphalen, tentar encontrar o livro sonhado, o sonhado livro. Para minha decepção, nenhuma das pouquíssimas livrarias de lá possuía a obra em seu catálogo. Entretanto, para a minha felicidade, a dona da lan house de Vista Alegre ajudou-me a encontrar o livro disponível na internet, em um arquivo muito estranho que até hoje não sei qual é. Pronto, o meu mundo estava salvo. Ledo engano! Eu não tinha computador em casa para ler O mundo de Sofia, tampouco conseguia lê-lo no computador da lan house, tamanho barulho dos que compartilhavam o mesmo espaço comigo. Salvei o arquivo em um disquete (cd-rom ainda era bem desconhecido em Vista Alegre, hehehe) e o levei para casa. Durante horas, ficamos eu e o disquete a nos olhar, inquirindo, um do outro, uma solução.
Pode surgir a pergunta: mas por que você não imprimiu o arquivo? A resposta: o livro O mundo de Sofia já é extenso por si só e no arquivo, aquele estranho, suas páginas duplicavam-se e/ou triplicavam-se, e, portanto, eu não tinha dinheiro para arcar com tal despesa. Tive uma ideia! E se eu fosse até a prefeitura municipal e tocasse fundo em alguma boa alma que quisesse ajudar um rapaz leitor? Pelo rapaz, tão conhecido na cidade por sua paixão pela Literatura, imprimiram o arquivo contendo o livro O mundo de Sofia. Imagine a cena: o rapaz leitor, sorridente, andando pelas ruas da cidadezinha com um calhamaço de cerca de 20 centímetros de folhas de ofício. E assim, em dois dias, devorei O mundo de Sofia. Foram os 20 centímetros mais felizes da minha vida.

(*) Felipe Freitag - poeta, contista, educador e Mestre em Estudos Linguísticos pela UFSM

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