Tema: a tecnologia em nossa vida

É inerente ao percurso da vida e não temos escolha: todos chegarão à meia-idade. Eis que chegou a minha vez e me deparei com situações que eu não havia imaginado viver quando tinha meus vinte e poucos anos. O que vejo é que alguns encararam essa transição com uma autoconfiança inabalável, outros com espírito juvenil, uns agarram-se às glórias do passado e talvez à maioria entre em crise existencial.

O bom disso tudo é que estou aqui, lúcida, autêntica e mantendo um posicionamento que posso adjetivar que está abrandado pelos anos, porém consistente. A partir disso, vou correlacionar o que tenho lido e observado sobre as mudanças em minha volta e que estão alinhadas com as questões e impactos da meia idade.

A primeira delas é sobre os titãs da tecnologia que começam a sofrer essa crise da meia-idade, depois de anos de glórias e crescimento. O novo relatório do Pew Research Center divulgado na semana passada, sobre a influência da tecnologia digital na democracia, revela como estão sombrias as opiniões dos especialistas em tecnologia. A maioria deles está muito pessimista.

A fase de total entusiasmo com a internet foi seguida por uma fase de techlash (reação negativa com a onipotência dos gigantes da tecnologia – Facebook é um deles), em que os internautas vivem a preocupação com a velocidade, o alcance e a complexidade da internet utilizada para fins nocivos. Nos últimos quatro anos – época da decisão do Brexit no Reino Unido, das eleições presidenciais dos EUA e de outras eleições em países, inclusive o Brasil – a disruptura digital da democracia passou a ser uma das principais preocupações.

A reservs que resiste às grandes empresas norte-americanas de tecnologia é um fato, e alguns pioneiros estão aderindo a esse coro. Os governos estão investigando ativamente algumas dessas empresas. Além disso, organizações e fundações sem fins lucrativos estão direcionando recursos para encontrar estratégias para lidar com os efeitos nocivos dessas disrupções. A Knight Foundation, por exemplo, anunciou em 2019 que está doando US$ 50 milhões para incentivar o desenvolvimento de um novo campo de pesquisa centrado no impacto da tecnologia na democracia.

Sob este furor, em 2019, a Pew Research Center e o Imagining the Internet Center da Universidade Elon indagaram especialistas em tecnologia para compreender a concepção deles sobre possíveis impactos futuros do uso de tecnologia pelas pessoas na democracia.  O relatório é baseado nos comentários escritos de 979 pessoas da indústria de tecnologia ou próximas à ela (englobando líderes de negócios, empreendedores, inovadores, desenvolvedores, acadêmicos, pesquisadores e ativistas) à essa pergunta:

Entre hoje até 2030, como o uso da tecnologia por cidadãos, grupos da sociedade civil e governos podem afetar [enfraquecer ou fortalecer] aspectos essenciais da democracia e da representação democrática?

Por volta de 49% dos acredita que a tecnologia “enfraqueça a democracia até 2030”, devido à rapidez e ao alcance de distorções da realidade, ao declínio do jornalismo responsável e profissional e ao impacto do capitalismo. 33% tem a expectativa que a tecnologia fortaleça a democracia, à medida que surjam formas de minimizar o caos de informações e as fake news e 18% afirmam que não haverá mudança significativa na próxima década.

E aí? Vamos conversar sobre isso?

Na próxima edição, continua a reflexão.