Apropriei-me do título da obra do Salvador Dalí para tratar do tempo real e do tempo inconsciente. Contam os críticos de arte que nas interpretações mais comuns desta obra os admiradores refletem sobre este tempo marcado por segundos e sobre o tempo que não conseguimos dimensionar, muito menos mensurar. Acredito que Dalí foi feliz quando na sua criação surreal nos presenteou com esta imagem repleta de signos que nos leva à viagem sobre o que é este tempo que rege as nossas vidas.

As imagens dos relógios transfigurados nos conduzem para o questionamento de qual seria a precisão destes aparelhos com a imprecisão de suas formas. O relógio é um objeto banal que todos já conhecemos e provavelmente usamos. Geralmente não prestamos muita atenção nele, mesmo que seja responsável por marcar, dar o passo do nosso dia e dos nossos compromissos. Quando Dalí transfigura o relógio, ele nos faz perceber como esse pequeno objeto tem uma importância tão grande em nossa vida. E agora, o que faremos com um relógio assim?

E vem a vibe da relativização e fazemos a análise sobre o tempo real e o tempo inconsciente. A memória é uma forma de marcar o tempo, uma forma interna e subjetiva. O tempo da memória não é o mesmo do relógio comum: um momento que passou há muito pode ser lembrado como algo recente, e o dia anterior muitas vezes, nos dá a sensação de parecer como algo que aconteceu anos atrás.

A grande sacada da obra de Dalí é nos proporcionar esta relação de estranheza e surpresa diante de um objeto tão banal que destituído de seu uso, formato e aplicação convencionais dialoga com a nossa concepção do tempo, algo tão precioso que não permite a sua recuperação. Tenho dito sempre que o tempo e a energia vital são irrecuperáveis. Nesta vida podemos sofrer muitas perdas, mas nenhuma se compara com as relacionadas ao tempo e à energia. Os dois, uma vez perdidos. Já era! E a grande vantagem do tempo é que ele pode ser revivido através de nossos resgates da memória inconsciente e ser resinificada para que possamos viver melhor e com intensidade o agora.