Mesmo sem saber, talvez Lenine já nos dava a letra - 20 anos atrás - para refletirmos o hoje, quando lançou o álbum Na Pressão, com a música Paciência. Enquanto o tempo acelera e pede pressa, continuamos a contar as vidas perdidas, que já são mais de 100 mil neste momento. Mas nem por isso foi decretado luto oficial no país. Coube ao STF e ao Congresso o gesto de respeito. No mesmo dia, o Presidente da República apenas recomendou: “vamos tocar a vida”. Mas não deixou de parabenizar o Palmeiras pelo Campeonato Paulista, afinal, a vida (e o futebol) não param.

Em se tratando de não parar, de esperar a cura do mal e fingir que isso tudo é normal, muitos empresários seguem priorizando os negócios acima das vidas de seus funcionários, sob a justificativa do emprego, a ponto de acreditar que defender a vida revela-se uma atitude ideológica (sem nem mesmo entender o conceito de Ideologia). Pensam que seria uma causa pertencente a um grupo político específico, como se não fosse um compromisso ético de todos os cidadãos zelar pela saúde das pessoas, independente do seu grau de relação. Finjamos ter paciência!

Paciência é o que o mundo espera de nós. Um pouco mais de paciência para dia após dia nos depararmos com pessoas que ainda não entenderam que o uso da máscara vai além de uma medida sanitária para preservar vidas, refere-se a um ato de respeito ao outro e à sua própria vida. A vida é tão cara, mesmo quando tudo pede um pouco mais de (c)alma, muitos querem que a vida não pare a qualquer custo. Três exemplos recentes podem ilustrar a fragilidade da nossa humanidade: as “Corona fests” que se multiplicam pelo mundo, organizadas por jovens que pensam ser imortais; os religiosos fundamentalistas que - à revelia das leis - preferem pôr em risco a vida de uma menina de 10 anos grávida após sofrer estupro; e o corpo de um representante comercial que é escondido com engradados de cerveja e guarda-sóis para que um mercado continuasse funcionando “normalmente” após ele ter sofrido um infarto enquanto trabalhava.

Eles dizem: “todo mundo morre um dia”, “precisamos ser fortes”, “todo mundo vai ser contaminado”, “pessoas idosas já estão fadadas à morte”, “é preciso parar de contar os mortos”, “são apenas números”, “não é necessário usar máscara”, “é preciso seguir”. Mas marquemos passo, recusamo-nos à insensibilidade e à desumanidade, vamos na valsa, pois a vida é tão rara!