Abrir mão de uma carreira, de escolhas que foram conduzidas pela sua formação mesmo que isso pudesse indicar um futuro não muito promissor, em um ambiente de areia movediça, para abrir o próprio negócio, é motivo de espanto e estranheza por parte dos que nos rodeiam – eu passei por isso quando optei por encarar o universo de gestar meu próprio negócio.

Eu estava trabalhando 40 horas como educadora na educação básica, com expectativas para assumir mais 20 horas de função concursada, somando um tempo que ultrapassava 18 anos de trabalho com educação e por situações que a vida não explica, eis que me deparo com a possibilidade de tocar um negócio próprio. Recordo-me ainda como se fosse hoje dos olhares espantados das servidoras da 20ª Coordenadoria da Educação de Palmeira das Missões, quando ouviram o relato da minha decisão de exoneração e do pedido de desistência das nomeações que haviam ocorrido bem nos dias que antecederam a data da minha decisão de saída do magistério. Valeu a pena? Vou lhe explicar como vejo a jornada.

Nesta época (e calma, não faz tanto tempo assim), a expressão “empreendedorismo”, principalmente o feminino, pouco era pronunciada no meu entorno. Os cursos de gestão e negócios não abordavam o assunto e pouquíssima literatura dedicada existia à disposição. Comecei a me dar conta das coisas que a escola não ensina e isso puxou a minha orelha muitas vezes, em diversas e distintas situações. Como mulher, como mulheres são preparadas para gerir negócios? Como lidar com o mercado, com fornecedores, com prestadores de serviços, com o público interno, com o público externo? 

Contudo, em meio a tanta carência, existia também a falta da verdade. Aquela que dá a letra. Que deixa a gente com os pés no chão, sabe? O que mais encontrei e encontro até hoje são muitos clichês e conceitos, quase sempre desconectados da realidade, empacotados e anunciados com frases pré-fabricadas pronunciadas por mestres que muitas vezes jamais empreenderam na vida.

Ah, mas alguns destes gurus foram empreendedores, não é mesmo? Se empreenderam, invariavelmente colecionaram uma leva de quebradeiras travestidas e explicadas por afirmações do tipo “Matamos a primeira hipótese e estamos seguindo a segunda”.

Falam assim como se o ambiente de negócios e o universo legal/fiscal vivenciado pelo empresário brasileiro fosse idêntico ao enfrentado na Califórnia ou em outros polos/regiões do mundo, que, para turbinar a livre iniciativa, coloca à disposição ambientes extremamente desburocratizados em uma dinâmica pouco punitiva ao fracasso e irrigada com um sistema de crédito amigável.

Sugiro a conversa com uma pessoa que tenha um negócio de verdade. Que começou do zero, que não vive de concessão pública, que tenha enfrentado crises, consequências pessoais difíceis por conta do caminho que decidiu escolher e perseverado construindo e colocando cada tijolo para erguer algo sólido, independentemente do porte ou setor de atuação, para questionar se este mundo colorido, leve e engraçadinho existe. Certamente esta pessoa, com esta experiência, vai rir de você.