Na edição passada trouxe uma pincelada breve sobre a economia Donut. O princípio que merece destaque maior é a urgência de revermos o mito da economia dominante, do “homem econômico racional” (homo economicus) e da neurose pelo crescimento infinfo a qualquer custo e propor um sistema no qual as necessidades de todos são satisfeitas sem esgotar os recursos do planeta.

De acordo com o que Kate Raworth em livro homônimo, “Economia Donut: Sete maneiras de pensar como um economista do século XXI” nos aponta, que a economia praticou uma falha ao se constituir de tal maneira intensamente matemática e menos humanizada como ciência e mais ainda, na prática. Lá pelos anos 1870, quando iniciaram a construção da economia uma ciência, copiando a física newtoniana: da maneira como um pêndulo é carregado à inércia pela gravidade, os mercados são conduzidos ao equilíbrio pelos preços. É uma péssima correlação. A economia é uma construção entre humanos e o ambiente. É impossível de acomodá-la numa equação. O contexto que é iluminado pelo refletor da pandemia, nesse sentido, foi um estímulo impulsionador para esclarecer o engodo, a falácia do ‘homo economicus’, exemplificando: o que é este debate em torno da redução da vida ao valor econômico ou a negação do público e do comum?

Um dos casos incongruentes e igualmente representativo que descortinou essa inevitabilidade de reconsiderar o modelo de capitalismo destruidor e egocentrado é o do primeiro ministro da Inglaterra, Boris Johnson. Ao recuperar-se e sair do hospital público, após ser contagiado pelo coronavírus, reconheceu que foi o sistema público de saúde que lhe resgardou a vida, exaltando a presença desse sistema nestes instantes. A COVID-19 expôs categoricamente a insuficiência do setor privado para afrontar de maneira planetária e em imensa escala um problema de saúde pública de tamanha dimensão. Além disso, desnudou o contrassenso contido no discurso do ‘homo economicus’, ao apresentar o martírio calculado de milhares de vidas para que o produto interno bruto (PIB) não reduza. Irrevogavelmente, não suportamos mais colocar a vida humana a serviço da economia. Este combo precisa ser invertido já!

Cá entre nós, faz sentido imaginar uma economia saudável baseada na concepção de que sua gênese está na prosperidade, e não no crescimento?  Há uma lógica sistêmica nisso: nada na natureza cresce para sempre. Mas a natureza nos ensina muito bem o que é ser abundante. O que nos falta então? Talvez um pouco de bom senso possa nos ajudar a ver novos horizontes. Gosto do que a Kate nos apresenta com a economia Donut. Pensemos juntos, se a gente trocar a curva de crescimento infinito do Produto Interno Bruto (PIB) por um círculo, a rosquinha, o Donut: no anel interno, está o acesso à água potável, alimentação, moradia, saúde, educação, renda, igualdade de gênero, justiça, voz política – o mínimo necessário para termos acesso a uma “vida boa”, oriunda dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e assente pelos líderes mundiais de todos os campos políticos. Cada pessoa que não alcance tais parâmetros essenciais concebe-se que está vivendo no vazio da massa do donut. O anel externo da rosquinha simboliza o teto ecológico pautado pelos cientistas em associação ao planeta. Este teto ecológico salienta as fronteiras por meio das quais a espécie humana não pode avançar para evitar destruição ao clima, solos, oceanos, camada de ozônio, água doce e biodiversidade. A situação clama por uma economia regenerativa e circular, assim nos presenteará com um resultado positivo sobre as sociedades e o ambiente. Onde está o nosso bom senso? Será ele o melhor consenso?