Ouvindo Sting

Em tempos idos, perto do gomo da taquara, julho e agosto traziam diferenças, nos dias de educação física, o sol despontava e já havia o aviso na hora do recreio: Ensaio Geral de Marcha nos dois últimos períodos.

Tudo era alegria, não tínhamos os problemas do agora, nem muitos pesadelos, apenas aqueles que no sonho imaginávamos estar caindo e, antes de se esborrachar no chão, acordávamos. Tinha um recorrente, de pular de um alto canteiro na praça que atravessava praticamente todos os dias.

Nos meses que antecediam o desfile do dia da pátria, ensaiávamos o hino, copiado do quadro verde da irretocável letra da professora, que com ar solene explicava cada parte, braço forte no singular, e, assim por diante. Não apenas o hino Nacional, tinha o da bandeira também. E naquelas de memorizar cada capital de estado e, onde ficava, nos dedicávamos a aprender a latitude e longitude deste país continente.

Sete de setembro, camisa branca, calça de tecido azul marinho, posteriormente vieram os abrigos com as logomarcas das escolas. Sempre havia carros temáticos, era bastante cartolina, papel crepom e laminado. Cada colégio exercia com criatividade a amostra do seu civismo.

Uma parte importante do desfile era a Conga nova, um calçado econômico e popular, com solado emborrachado branco e de lona azul marinho. Claro que por ser econômica não aguentava o tranco do início ao final do ano, já que a piazada medonha usava da manhã á noite, no futebol, no carro de lomba, enfim extensão orgânica do pé. Um dos maiores gênios do futebol de salão destes pagos e de outros também, o Carlinhos Donin, só jogava de Conga, gênios normalmente são pessoas extremamente humildes. Talvez essa lição tenhamos aprendido depois de certo tempo. Ainda bem que em tempo.

Voltando a trilha, “Piá e cachorro o que muda é a cor da coleira.” Ditado comum desta geração. Mesmo com o cuidado na casa materna, de lavar e colocar para secar, as Congas fruto da lona e do suor pré-adolescente exalava com o passar do tempo um composto que poderia facilmente ser utilizado na falta de anestésico, visto que o odor conhecido como Chulé.

Vendo o estado dos calçados e na época querendo que os rebentos estivessem perfilados de uma forma ao menos aceitável, “imagina o que vão dizer”, cidade pequena, as línguas de plantão e as crenças que permeiam as mentes dos pais e mães, penso que até hoje exista, talvez de forma mais velada. Como os calçados eram baratos e, o pessoal dava um jeito de comprar uma, certamente com o auxílio do crediário amigo do fiado camarada.

Ao ganhar a Conga nova, normalmente junto com o sermão de ter que durar um ano e, somente usar com as meias brancas também novas, naturalmente apenas no momento que iríamos para a escola para formar os pelotões. Chegando na aula um instante antes , sempre, mas sempre mesmo, havia os colegas, aqueles lá do fundão, que chegavam e meio mongóis pisavam no bico da Conga nova e diziam a célebre “Batizei”. Rebuliço, pescoção e lá vinha a Profe, com um rolo de papel higiênico na mão, prontamente os piás davam um cuspe e tascavam um pedaço de papel, tirava o excesso da patinha do bocó que tinha batizado, ao menos no meio de tanto pé, no desfile isso passava, o que não passava era a cisma e a raiva de antes de cada desfile.

Hoje, seguramente isso até daria cadeira elétrica, tenho visto coisa e acho que ainda não vi tudo.

Lá na frente começava a ruflar tarol, bumbos, caixas e o escambau: Tan. tararam. Tan. Tan. tararam tan. tan. e, as “Rica-joia” como diria a Dona Ernestina, marcavam passo, claro que lá antes da esquina um se distraía e trocava o passo, chamado atenção pela Profe, acertava e seguia, como o mais belo pelotão desta parte do mundo.

Saudades desta época, do irmão, dos amigos, das Profes que já subiram, do Pai que olhava orgulhoso, mas não falava. De nossa bela visão de mundo e do País que aprendemos a amar.

Com ou Sem camiseta de seleção, sem a negociata que virou certa parte, que sinceramente nem sabíamos que existia.

Talvez deveríamos voltar a entender o todo e fazê-lo funcionar em cada parte. O Olhar bastava, era forma de tratamento.

Hoje certamente teríamos menos celas nas penitenciárias e mais classes nas escolas.

Quem sabe pudéssemos recriar a Conga.