Não, 2020 não foi um ano perdido! Inicialmente, deixo registrado que esse é um escrito para reflexão e não apenas para informação e dados. Escrevo pensando que ele pode ser valioso, se o olharmos como reflexo e não como um binóculo.

No ano que se foi, foram escritos artigos e textos com olhares que tratam do balanço da recente volta do planeta Terra ao redor do Sol, julgando-o como se 2020 devesse ser esquecido, riscado do calendário e seu número, sem ser pronunciado para deixar o agouro no esquecimento.

Na maioria dos textos sobre 2020 o que se lê é uma abordagem sobre a retração dos mercados, o número de desempregados, diferenças sociais, a disseminação da COVID-19 e as novas cepas, o número de mortes, negacionistas, “antivacs” e uma ladainha de realidades consideráveis.

A questão é: para se destacar na crítica nos últimos 365 dias, os títulos são do tipo “2020 – o ano que não existiu”, ou algo parecido, com o objetivo de “caça-likes”.

No entanto, o ano 2020 existiu, sim. Existiu DEMAIS.

Doido demais. Rápido demais. Longo demais. Violento demais. Triste demais. 2020 jogou na cara da humanidade a discrepância entre o discurso de empatia social e a ação que fere uma hipotética individualidade. Esbugalhou que nos últimos tempos a cultura hedonista se sobrepôs à busca do bem comum. Revelou múltiplos interesses políticos como ferramentas de gestão de massa e manipulação de dados. E doeu.

Um pancadão! Sim. 2020 bateu forte, não somente por meio das mais de 1,8 milhão de mortes físicas. Sua onda também atingiu a humanidade psicológica e emocionalmente. Distanciamento. Isolamento. O autocuidado posto à prova como símbolo de um interesse além de si. Como se uma pessoa obesa fosse recomendada a emagrecer para salvar o seu vizinho. Conseguiríamos?

2020 foi tão dolorido que o desejo por seu final trouxe a hashtag #acaba2020 como trend topic nas redes sociais e teve até empresa que decidiu fazer campanha de Natal em julho. Esta foi uma de muitas estratégias de marketing e vendas associadas à esperança infantil de fazer os problemas desaparecerem, ao invés de serem enfrentados com maturidade.

Para nós, humanos, temos presente diante de nós a possibilidade de aprendizado e desenvolvimento pessoal – desde que haja consciência, o que demanda processamento de ideias, senso crítico e umas escapadas da zona de conforto.

Antes de qualquer coisa, 2020 toma forma por meio da reflexão intencional. Com a busca por uma vida significativa no encontro entre ética, moral e caráter. Uma competência de senso crítico que só se desenvolve com educação, autonomia, referências e prática. Infelizmente, para muitos dos brasileiros faltam todos os itens.

Mas não precisa ser assim. 2020 é uma espécie de Gato de Schrödinger e você é parte essencial para trazê-lo à realidade. Não fuja dessa responsabilidade.

Qual foi o seu aprendizado?

– Compreender a gravidade do problema da violência contra as mulheres, com os maiores protestos já realizados na América Latina e o crescimento das agressões durante o período de confinamento?

– A urgência da discussão e de ações para combater o preconceito e reconhecer a força das vidas negras? #blacklivesmatter

– Os impactos nefastos da desigualdade econômica e social ao acesso à saúde?

– A transformação do papel do trabalho, invadindo a vida e o ambiente pessoal dos trabalhadores e trazendo questionamentos sobre o limite saudável do espaço (físico e mental) do trabalho?

– Perder o medo e viver cada instante plenamente. Eu aprendi muito. Vivi a realidade e senti a pele arrepiar como diz a Bruna Sörensen. Até participei do pleito municipal e ganhei uma baita de uma experiência, conheci pessoas incríveis, fiz uma campanha limpa e com uma proposta de responsa. Teve até uma mulher alta e nada elegante que me pediu: “E aí, como foi a sua aventura?” Eu quase respondi em alto e bom tom: “Que aventura? Foi uma pós-graduação e tanto!” Eu não brinquei em serviço. Se pareceu brincadeira, que bom. Porque cada dia foi vivido com leveza.

Então, 2020 existiu. Existiu MUITO.

Caso contrário, isso significaria que você não aprendeu nada. E eu, sinceramente, espero que você tenha aprendido – talvez só falte humildade para assumir e começar a agir de acordo com as lições deste tempo bom: 2020 – grATITUDE.

Hiperlinks

*1,8 milhão de mortes

*violência contra as mulheres

*ações

*acesso à saúde

*trabalho