Eu espero que o leitor e a leitora tenham sentido a minha ausência por aqui, pois, confesso ter sentido a falta de escrever para cada um e cada uma de vocês. Foram quase sessenta dias sem escrever uma linha para este espaço, que possui um lugar cativo na minha rotina nos últimos 10 anos. Eu fiquei pensando sobre o assunto desta coluna de retomada e lembrei de uma experiência que tive há vinte anos atrás.

No ano 2000 eu fui até o sertão da Bahia, precisamente a uma cidadezinha chamada Coração de Maria, como integrante de uma missão de estudantes e pesquisadores através de um programa do governo FHC, chamado de Universidade Solidária. Chegando lá, minha atribuição principal foi de cuidar da relatoria de todos os projetos da equipe. O objetivo maior, da nossa presença, segundo o prefeito de Coração de Maria da época, era absorver o maior número de recursos possíveis com projetos, através da captação de verbas federais por intermédio dos contatos com o senhor Antônio Carlos Magalhães (vulgo Toninho Malvadeza – assim conhecido por nós e idolatrado por muitos políticos da Bahia).

Assim eu me dediquei por sessenta dias, durante janeiro e fevereiro de 2000. Muita escrita em ótimos projetos, com ajuda de engenheiros, assistentes sociais, biólogos, entre outros profissionais. Lá conheci o que de fato, infelizmente acontecia – espero que não aconteça mais - com os recursos públicos: grande parte dos montantes destinados para resolver questões essenciais para a população se perdem no caminho e, é na esfera municipal que a falha maior ocorre: falta preparo e comprometimento de quem está diante do processo de gestão são as maiores causas da ineficiência da aplicação correta destes recursos.

Outro detalhe, na pequena Coração de Maria-BA dos anos 2000, havia dois coronéis que se revezavam na gestão do município. Um era proprietário de um hotel fazenda e controlava a rádio e o hospital da cidade – que por sinal, funcionava muito mal. O outro, prefeito de Coração de Maria naquele ano, tinha uma fábrica de fertilizantes numa cidadezinha próxima e cultivava grandes áreas de terra no estado da Bahia com plantações de frutíferas destinando toda a produção para a exportação. O restante da cidade vivia em meio ao esgoto a céu aberto, residindo em casas de taipa tomadas pelos barbeiros – o inseto transmissor da doença de Chagas - e sem a mínima infraestrutura básica para uma vida digna.

Toda a vida social da cidadezinha acontecia em torno da feira/mercado ao ar livre que acontecia aos sábados. A infraestrutura da feira consistia em tendas, nas quais era comercializado de tudo: de cadarço até carne. Detalhe, o cepo no qual a carne era cortada à machadadas num sábado, era o mesmo que seria usado na próxima semana. Chorume escorrendo, gato, cachorro e urubus em volta dos cortes de carne pendurados nos ganchos sob o zumbido das moscas. Assim este povo vivia. Uma situação de doer no coração.

E o que era esperado da gente? Eles só queriam os projetos porque assim eles conseguiriam recursos. Recursos esses que inclusive já haviam sido destinados para a construção de uma nova estrutura para este espaço da feira pública e haviam evaporado pelo que levantamos na época. Na noite em que o prefeito nos convidou a irmos à sua casa para nos agradecer pelo trabalho feito, fomos surpreendidos por uma mansão de uma quadra inteira, com murada de três metros de altura, seguranças, copeiras e chef. Um banquete nos aguardava. E o prefeito? Ele não morava ali. Ao perguntarmos: “O sinhô mora em Salvadô!” – afirmou a cozinheira.

E assim seguimos. Trabalhamos por sessenta dias sem parar na elaboração de projetos para captar recursos para a pequena Coração de Maria. A minha esperança é que o povo de lá tenha se dado conta do poder da mudança. Mas esta história eu preciso averiguar para contar a vocês.

Até a próxima!