Acesso à água potável, Educação, Saúde, Cultura, Moradia, Alimentação e Emprego. Para que a dignidade da pessoa humana - prevista na Constituição Federal (1988) - seja assegurada aos cidadãos, tais direitos precisam ser disponibilizados universalmente. Caso contrário, não são direitos. São privilégios. E privilégios são para poucos. Muitas vezes, os privilégios são invisíveis. Invisíveis como grande parte da população pobre ou negra ou indígena ou encarcerada ou em condição análoga à escravidão ou em situação de rua. População essa que não pode ficar em casa e se resguardar da contaminação do novo Coronavírus por exemplo. Se na Europa, a idade (elevada) indicaria o grupo de pessoas com risco de contaminação, no Brasil o parâmetro seria a classe social (pobres) e a cor da pele (negra) que determinariam os mais prejudicados.

Eu e vocês que me leem fazemos parte dessa parcela privilegiada da sociedade. Reconheçamos! Sabemos ler e escrever e, provavelmente, estamos sob um teto com iluminação, ventilação, banheiro e água encanada, essencial para sobreviver a uma pandemia que requer cuidados especiais de higiene. Mas isso não é mérito. Diz respeito às oportunidades que nos foram proporcionadas pelo Estado ou pela nossa família. Infelizmente, nem todo mundo é alcançado pelo Estado ou tem uma família com condições financeiras favoráveis. Não omitamos nossos privilégios de forma egoísta. É nossa obrigação reconhecer isso e também lutar para que a igualdade de direitos prevaleça. Ficar em casa, neste momento, é um privilégio. Ficar em casa trabalhando remotamente, com o salário em dia e as contas pagas é um privilégio ainda maior. Significa poder trabalhar, cuidar de si e de seus familiares e, ainda, contribuir para que a comunidade seja menos afetada.

No Brasil, mesmo que tenhamos ciência da desigualdade social no país, o governo federal desejava conceder, inicialmente, um valor ínfimo às famílias mais necessitadas. O auxílio emergencial com um valor razoável só foi aprovado após muita discussão no Congresso Nacional. Nessa direção, segundo a ONU, um terço da população mundial precisará da renda básica temporária por conta da pandemia, o que corresponde a 2,7 bilhões de pessoas. Parêntese: já o patrimônio dos super-ricos brasileiros cresceu US$ 34 bilhões durante a pandemia!

Muitas iniciativas, a exemplo da Cufa, Gerando Falcões, Unicef, Médicos Sem Fronteiras, Action Aid, Redes da Maré, Greenpeace, Amaa, Uneafro, Ação Cidadania, Apib, CACC e muitos outros movimentos sociais mundo afora atuam permanentemente de forma incansável. Isso porque, infelizmente, os conflitos sociais, o desmatamento, a fome e a sede não cessaram durante a pandemia. Tendo em vista a conjuntura e o nosso lugar de privilégios, colaboremos de forma voluntária em projetos, com a arrecadação e doação de alimentos e materiais de higiene, ou até mesmo com contribuições financeiras.