Na coluna passada, trouxe a comparação das ostras que transformam o desconforto da areia nos seus corpos moles em pérolas. E agora, vou trazer uma citação do Frederico Trajano, executivo da Magalu, uma empresa brasileira que usou muito bem o conceito de antifragilidade desde o início da pandemia. Veja só o que ele nos diz: “É hora de colocar um farol alto na economia, enxergar as possibilidades de crescimento que estão bem à nossa frente, e não de focarmos no que está dando errado”. Isso soa até de forma irônica naqueles dias em que estamos a fim de chutar o balde e nos dias que acordamos mais esperançosos, nos fortalece e faz com que tenhamos vontade de darmos mais um passinho. Faz sentido para você?

Pensando nisso, trago um exercício de criATIVAÇÃO, conjeturando quais seriam os enunciados da antifragilidade para as organizações: O que transmutaria uma empresa ou um projeto antifrágil? Trago para vocês particularidades ancoradas a partir de conceitos e definições que validam a carência de efetivação destas premissas dentro e fora das empresas:

Confiança: A crise de confiabilidade nas instituições – empresas, ONGs, mídia e governo – nunca esteve tão abalada. Nesse viés, as empresas se destacam como as mais confiáveis, competentes e éticas, por 61% dos entrevistados. Tais conclusões fazem parte do relatório Edelman Trust Barometer 2021. Consequentemente, as outras organizações, nesse momento, têm um papel essencial de resgate da confiança das pessoas.

Diálogo: A solidão é coletiva em todo o mundo – metade das pessoas afirma se sentir só com frequência, segundo relatório da Ford. As gerações mais jovens sentem isso de forma mais aguda: os da Geração Z são quase duas vezes mais propensos a dizer que se sentem mais solitários do que os Boomers (64% contra 34%). Como resultado, muitos estão reconsiderando onde moram, mudando para mais perto da família e encontrando novas formas de companhia e diálogo – seja online ou offline. Nesse sentido, as empresas devem atuar positivamente, criando espaços de dialogo com e entre seus colaboradores e consumidores.

Diversidade: No mundo, o nível de desigualdade é altíssimo – principalmente porque a pandemia trouxe um impacto desproporcional para as populações de baixa renda, minorias étnicas e mulheres. O relatório da Ford constatou que 76% dos adultos em todo o mundo esperam que as marcas tomem uma posição em relação às questões sociais – e 75% consideram que as marcas hoje estão tentando fazer a coisa certa. Diversidade e inclusão são proposições antifrágeis para os negócios que querem criar engajamento genuíno e impactar a sociedade de forma positiva.

Colaboração: A colaboração é o caminho! Em 2020 as empresas que já viviam esta cultura puderam vivenciar a melhora dos níveis de antifragilidade das equipes. A remoção dos silos entre as equipe e o trabalho focado no reconhecimento das habilidades para colaboração multifuncional oportunizaram melhores resultados. Então, vamos colaborar? Cooperar, comunicar com clareza e fazer tudo fluir bem!

Empatia: A ansiedade está espalhada pelo mundo, acentuada pelo medo do vírus e também, resultante das preocupações geradas pela pandemia na coletividade, no mundo do trabalho, na educação e demais áreas. Mais da metade da população adulta tem apresentado níveis mais altos de estresse desde o início da pandemia. Conscientes disso, as pessoas estão dispostas a dedicar tempo, recursos e atenção para cuidar da saúde mental. Junto a isso, através de interações, estão sendo encontradas novas formas de agir, de se conectar e de empatizar com as necessidades das outras pessoas. E no mundo dos negócios, mais do que antes, é importante assumir o papel corajoso de abordar os problemas com clareza e tratar tudo o que impacta a empresa com transparência, lembrando-se de abordar empaticamente os medos das pessoas envolvidas.

Propósito: Liderar um negócio tendo como base um propósito genuíno é a melhor forma de criar a lealdade, a credibilidade e o destaque na vida de cada cliente. Através disso os ganhos de participação de mercado e os índices de crescimento atingem em média, um nível três vezes maior e mais rápido que os concorrentes. Vale destacar também que são maiores os níveis de satisfação de clientes e funcionários. Hoje, há no mercado uma parcela bem considerável da população, que se dispõe a pagar preços maiores se uma marca aumentar seus preços para se tornar ambientalmente e socialmente mais responsável, ou então, se pagar salários mais justos a seus funcionários. Estou a pensar: qual a entrega que a minha empresa vai gerar para a comunidade nos próximos anos?

 Compromisso com o Coletivo: Lá no início da pandemia, a qualidade do ar apontou como uma possível vantagem do lockdown mundial, porém todo o otimismo ruiu por terra com o aumento no uso de plásticos e outros descartáveis, esclarecendo que ser sustentável e se manter sustentável nem sempre são fatos que andam de mãos dadas.  Quase metade da população mais jovem do mundo, a Geração Z, acredita que com a pandemia nos tornamos mais esbanjadores e que, num futuro próximo, a pandemia terá deixado um impacto negativo no meio ambiente. Sendo assim, será que chegou a hora das organizações pensarem no coletivo e como suas ações podem impactar positivamente o todo?

Adaptabilidade: O traço da força de trabalho que tem dado o som para o mercado é o da flexibilidade e adaptabilidade e com ele, vem o sinal de um futuro possível para as organizações. Com a pandemia, comportamentos e hábitos foram abalados, assim novas necessidades e prioridades vieram à tona. Tanto as empresas grandes como as pequenas sentiram e ainda sentem a necessidade de adaptação rápida. Todas estas mudanças estão gerando novas e melhores experiências de compras que estão alterando de vez o modo antigo de vender e comprar.

Diante desta lista de premissas antifrágeis, gostaria de pontuar um aspecto transversal a todas: a VULNERABILIDADE. É curioso notar que o antifrágil nasce exatamente da própria fragilidade. Somente quando sentimos e vivemos o caos, a tristeza, a perdas, a complexidade, a volatilidade em nós mesmos, é que conseguimos reagir.

Sem o inesperado, sem o caos, sem a incerteza, sem a impermanência, não é possível amplificar o antifrágil dentro de nós. Contudo, vivemos em uma sociedade que tem como ideal a felicidade privada e imutável com as mil e uma satisfações do paraíso. Vivemos em um mundo que evita as frustrações e anestesia o corpo e as sensações com remédios imediatos para não sentir a própria fragilidade.

As emoções repulsas, como a ansiedade, a raiva e o medo são necessárias para nossa humanização. O contratempo advém da falta de educação emocional, que nos conduz a caminhos que nos leva à rejeição do que sentimos, isso aguça e se amplia, ao fato do pânico tomar conta e passar a dominar todo nosso campinho. Quando bloqueamos uma emoção negativa, no mesmo instante bloqueamos as positivas. É preciso escolher viver para sentir o medo e tomar consciência de que podemos ir à diante mesmo com ele. Não é aceitação inconsciente, e sim aceitação ativa.

É tempo de darmos espaço à vulnerabilidade e ao medo, e abandonar nossa compulsão eterna pela felicidade e pela glória. É hora de nos desamarrarmos de nossa ilusão de permanência e manipulação. É tempo de concebermos que ser super-pessoas ou super-empresas infalíveis nos conduzirá para mais frustrações e fracassos. É tempo de nos expormos a todo tipo imprecisão e nos imunizarmos com o antídoto da antifragilidade.

Por fim, como dizia notavelmente o escritor Rubens Alves que, “a ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: ‘Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…’ Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor.”

O que você tem a me dizer sobre o que leu? Vamos conversar sobre isso?