Impactante e ao mesmo tempo geradora de esperança, a pandemia do novo Coronavírus não resultou na mudança de comportamentos, de atitudes e de hábitos na mesma proporção dos impactos na saúde humana. Muitos pensaram que a pandemia seria o estopim para grandes transformações (além das digitais), para a mudança de mentalidade e para a evolução de forma mais ampla e profunda da nossa condição humana. Porém, infelizmente, isso não aconteceu.     Por ora, mesmo sem o aval da Organização Mundial da Saúde, quase tudo “voltou ao normal”, incluindo as campanhas eleitorais Brasil afora.

De tão intensas, as expectativas geraram a noção de um “novo normal” durante a pandemia e no contexto após ela. No entanto, esperar por um cenário ideal enquanto a realidade continua a mesma em muitos aspectos, mostrando-se, aliás, nem um pouco “normal”, é não perceber ou não querer enxergar o caminho que ainda temos de percorrer. O que tínhamos era apenas o comum, não o normal. Pois o normal deveria garantir um padrão de sobrevivência, segurança e proteção. O que não ocorria e continua não ocorrendo. Antes da pandemia, o panorama não era “normal”, a menos que alguém considerasse normal que parte da população ainda seja analfabeta, não tenha acesso à água potável encanada, a saneamento básico e a três refeições mínimas diárias. Não haverá de ser agora que teremos uma sociedade normal, visto que desde o início da contaminação algumas autoridades, alguns empresários e cidadãos desrespeitam medidas sanitárias que salvariam vidas.

Tendo isso em vista, e indo além, para que tivéssemos o tão propalado “novo normal” precisaríamos evoluir muito. E vejam bem, não é tarefa difícil, como posso exemplificar a seguir: confiar na ciência, não desmatar florestas, oferecer salário digno e em dia a todos, não recolher dinheiro em nome de Deus, não corromper nem se corromper, proteger crianças e idosos, não maltratar animais, punir exemplarmente os crimes políticos, proporcionar acesso à casa digna, água potável e alimento, não manter pessoas em situação análoga à escravidão, valorizar a educação pública, não discriminar os outros por sua cor, classe, idade, religião, orientação sexual ou de gênero. Para começar é isso, porém desconhecemos nossa capacidade coletiva de construir algo melhor do que o que foi convencionado pela indústria, pela política e pelas igrejas. Eis o desafio que ficará para um outro momento seja lá qual for ele, sua proporção e seus impactos.

Diante do exposto, não estamos falando de um ideal nem de um novo normal. Possivelmente, apenas de um cenário com um padrão corriqueiro que foi alterado temporariamente por uma adversidade. Perdemos, pois, a oportunidade de, ao mesmo tempo em que nos reconectamos a nossa casa e aos nossos entes mais próximos, em que nos solidarizamos anonimamente com quem precisava, em que adaptamos rotinas e superamos os obstáculos impostos pela Covid-19, também repensarmos nossos atos e agirmos de forma diferente. O legado que fica deste período - para além da potencialização digital em inúmeras áreas - é a vontade de ajudar, a força de sobreviver e a luta em resistir de uns, enquanto outros continuam tentando multiplicar o capital ou se manter no poder. De normal essa discrepância não tem nada!