Estava no carro, junto com minha família, indo para o interior de Frederico Westphalen, em um belo domingo, quando olhei no retrovisor e percebi que lá estavam minhas filhas, minha mãe e ao lado minha esposa.

Notei que uma delas já bate no teto, e ambas tentando persuadir quanto a música ideal para colocar no bluetooth, e entre as escolhas, só as que eu não sou fã: Anitta, Pablo Vittar, MC não sei o quê.

De repente, aparece no retrovisor a imagem delas pequenas, uma na cadeirinha, outra no assento, e onde a maior preocupação era a náusea, e as constantes “brigas”. Uma disputa de espaço natural, onde não raras vezes, colocávamos cobertores e travesseiros que faziam a separação, tal qual a muralha da China.

A música que tocava no rádio, eu já nem ouvia mais, por que o retrovisor parecia um filme que ali passava. Nossa! Passa tudo muito rápido. E, talvez, o retrovisor queria dizer e mostrar que esses momentos são raros em nosso cotidiano.

Estar com sua família, parece tão normal. Mas não é. Se você fizer uma retrospectiva, verá que esses momentos são infinitamente mais raros que os nossos trabalhos, nossos envolvimentos profissionais e missões que temos durante a vida.

Logo o retrovisor ficou vazio e não via mais nada no banco de trás. Já não sabia se estávamos no passado, onde era apenas eu e minha esposa, onde viajávamos sem ar condicionado, sem vidro elétrico, sem USB ou bluetooth, ou estávamos no futuro, sozinhos de novo. Pois é gente, a tendência é isso. Voltar a estar a dois.

Daí com certeza a música será aquela que quisermos. Não terá náuseas, brigas e gritos...

Minha amada mãe ali exprimida no banco de trás, não mais estará conosco, e as viagens que ela me via no retrovisor já estão cada vez mais longe. Lembro que uma vez, coloquei uma balde na cabeça, por que que tinha vergonha da minha mãe quando dirigia, pois ela quando via um caminhão no retrovisor, ia logo para o acostamento e dizia: “quer passar, que passe.”

Todo dia, ao levantar, tento dizer a mim mesmo, para viver intensamente. Aproveitar cada momento, com alegria, com respeito. Brigo muito comigo, em relação as minhas manias, que são ¨fermentadas” pela nossa vida castrense. Como é difícil e tênue essa linha entre nossas manias e os deveres de nossos filhos.

Enquanto não estivermos sendo vistos no retrovisor novamente, e no volante de nossas vidas, vou continuar lutando contra o tempo e vencer as “manias”, as “caras feias” e “discussões” desnecessárias.  Pois se perdermos tempo, o retrovisor logo mudará a imagem e não veremos mais, apenas seremos vistos.

Até semana que vem.