Este ano pode ter nos dado de bandeja a oportunidade de alterarmos o processo que sustenta o desiquilíbrio, mais latente durante a pandemia, que é a desigualdade. No modus operandi de ontem e que muitas pessoas ainda insistem que é para lá que devemos retornar: socializamos riscos e privatizamos recompensas.

Sob este viés, governos designam, mas não criam arranjos que contemplariam esse investimento público. Assim, quando a economia retomar a curva de crescimento, desconsideramos os governos e consentimos que as empresas absorvam as benesses. Se alterássemos esta rota, permitiríamos que a economia pudesse se tornar mais inclusiva e sustentável.  Nesta linha de pensamento, ‘somente’ as empresas geram valor; os governos simplesmente oportunizam a ordem e retificam as ‘falhas de mercado’ (ou pelo menos deveriam se dedicar a isso).

O que apontamos que pode ser um bom caminho para este futuro que já começou? Inicialmente, podemos resignificar o conceito de valor. Culturalmente concebemos de uma forma muito rasa os conceitos de preço e valor – e essa bagunça nos conduz à desigualdade. Por consequência, também deturpa o papel do setor público.

A compreensão que trazemos aqui a respeito do valor vem dos economistas e dos criadores de políticas que o enxergam como uma permuta: basicamente, só o que tenha preço é concebido como valioso. Essa perspectiva exalta bens e serviços precificados – que, por sua vez, compreende o produto interno bruto de um país, o propulsor das políticas públicas. Isso reproduz efeitos cruéis. Uma jazida de carvão que libera carbono no ar amplia o PIB e, mesmo assim, é dado valor a ela. (A poluição gerada não é considerada.) No entanto, os cuidados prestados aos filhos pelos pais não são precificados e, logo, não recebem peso de valor.

Neste modelo, pessoas que obtém muito dinheiro aparentam ser muito ‘produtivas’. Nos anos de 2009, Lloyd Blankfein, executivo-chefe da Goldman Sachs, anunciou que as pessoas que trabalhavam no banco ficavam ‘entre aqueles mais produtivos do mundo’. Ele declarou isso um ano após a crise financeira de 2008 e um ano após esse conglomerado financeiro ter recebido US$ 10 bilhões do governo estadunidense.

Nitidamente, medir o valor a partir do preço ou pagamento, não é o melhor caminho. Além do mais, governos geram valor todos os dias (ou pelo menos deveriam), dos quais cidadãos e empresas se beneficiam (ou pelo menos poderiam). Os benefícios são acessados (ou pelo menos deveriam estar disponíveis) em estruturas “básicas”, como estradas, educação, saúde, segurança, cuidados com meio ambiente e outros bens e serviços essenciais, mas também das tecnologias que estruturam nossa economia.

Fica a pergunta para seguirmos a reflexão na próxima coluna: é possível socializar riscos e recompensas ao invés de socializar riscos e particularizar recompensas? O que mais precisa acontecer para nos darmos conta disso?