É possível socializar riscos e recompensas ao invés de socializar riscos e particularizar recompensas? O que mais precisa acontecer para nos darmos conta disso? Foram estas duas perguntas que finalizaram a coluna da semana passada e é com elas que iniciamos a reflexão desta edição.

Como ponto inicial trago o exemplo do Alasca que desde 1982 remunera lucros para os seus cidadãos oriundos do Fundo Permanente à base da extração do petróleo, denominado assim e socializado como um fundo de riqueza que é de todos. Atualmente o Alasca é considerado um dos estados mais igualitários dos Estados Unidos. Por outro viés, na Califórnia, o governador Gavin Newsom requereu “arrecadação para dados” a serem distribuídos para aos cidadãos devido o uso de suas informações pessoais – oportuno para um estado no qual, bilionários tecnológicos vivem e não conseguiriam faturar sem os investimentos públicos.

Estes são dois bons exemplos de rateio de bônus sob um olhar de um Estado que opta por reequilibrar a economia de uma maneira mais justa. Parece uma possibilidade bem congruente para estes tempos nos quais a pandemia veio selar, após séculos de permanente desiquilíbrio de acesso às riquezas geradas por grande parte da população. Os rendimentos aos cidadãos (também chamados de “fundo soberano de riqueza” ou de “fundo de riqueza dos cidadãos” ou de “fundo público de riqueza”) são uma forma de ajustar a balança social. Quando os governos destinam recursos para empresas privadas ou empresta-lhes fundos públicos, precisa planejar esses subsídios para que os interesses públicos sejam garantidos e as vantagens sejam proporcionais aos riscos. Os cidadãos podem possuir ações em empresas que embolsam apoio governamental de alto risco, como aquelas que estão captando incentivos para a recuperação da crise do Covid-19.

Isso não é novo! Já aconteceu em muitos lugares deste mundão. Por exemplo, durante a Depressão, o governo estadunidense obteve participações acionárias em empresas através da Reconstruction Finance Corporation, uma agência governamental que ajudou a financiar o New Deal*.

Você deve estar se perguntando: isso seria socialismo? Não – é simplesmente admitir que o governo, sendo investidor, pode se beneficiar por pensar mais como um capitalista de risco em torno de objetivos sociais e isso poderia ser uma escolha consciente de um grande plano de Estado: justo, correto e que assume a responsabilidade social enquanto ente voltado para o bem comum. Nós, como população, passaríamos a não culpar os governos por maus investimentos porque estes estariam exercendo um papel considerável a fim de garantir que o país se beneficie dos bons investimentos.

Outro exemplo, durante o governo do Barack Obama, o Departamento de Energia estadunidense gerou diversos investimentos em empresas verdes, como US$ 500 milhões em créditos à empresa solar Solyndra e US$ 465 milhões à Tesla. Na ocasião da falência da Solyndra, os contribuintes assumiram a conta. Por outro lado, quando a Tesla desabrochou, os contribuintes não foram gratificados.

Os governos também necessitam exercer papel intenso na negociação para garantir que a expansão da economia retorne para seus cidadãos. Empréstimos devem sim estar atrelados às sujeições, coordenadas com o comportamento corporativo focado nas métricas do desenvolvimento social. Atualmente, isso pode ser aplicado quando as empresas que recebem socorro em função da pandemia devam reter trabalhadores ou assumir compromissos que possam impactar positivamente no meio ambiente, adotando medidas baseadas na sustentabilidade, na redução da emissão de poluentes e afins.

Enfim, tudo isso pode ser um grande tema para ajeitar a casa e que deve ser começado já. Cada um e cada uma tomando a parte que lhe cabe para a solução deste imenso, porém possível, quebra-cabeças. Sair da bolha. Dar as mãos e cabo aos debates dicotômicos entre quem defende o público e combate o privado ou de quem defende o privado e combate o público. É fundamental conceber que não são somente as empresas que criam valor. Trabalhadores e instituições públicas também geram muito valor. Desta forma, será mais leve o trabalho que visa afirmar que as energias de todos sejam adequadamente remuneradas e que as benesses do crescimento econômico sejam partilhadas de maneira mais equitativa.

E aí? O que pensa disso? Vamos nessa?

* New Deal foi o nome dado à série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, além de auxiliar os prejudicados pela Grande Depressão.