Provavelmente, em algum momento do futuro, desejaremos recorrer àquela tecnologia do filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004) a fim de esquecermos o que vivenciamos em 2020. Apagar as memórias indesejadas deste ano, deixando apenas as que nos unem emocionalmente, será tão complexo quanto a trama do romance de ficção científica. Que permaneçam só as memórias de experiências boas relacionadas à pandemia como a solidariedade, o amor e o respeito à vida do próximo.

Entretanto, da consciência de muitos agentes políticos não será possível apagar a realidade pandêmica que se eternizará para o mundo. Para nossas lideranças que não levam em conta a ciência, não creem nos profissionais da Saúde, reduzem o investimento em pesquisa e instigam uma nova “revolta da vacina” (em pleno século XXI), a realidade voltará cobrando responsabilização. Na contramão do mundo, o Brasil parece que terá uma 1ª onda eterna de contaminação, sem trégua na interrupção de vidas. A média móvel de 300 a 700 mortes por dia parece ter sido naturalizada, inclusive ficando em segundo plano nos noticiários. E mesmo com mais de uma dezena de Ministros de Estado infectados, além do Presidente, insiste-se na negação e na omissão institucionalizada, com pequenas ajudas materiais já que é ano de eleições municipais.

O pleito eleitoral de 2020 explicita a condução da gestão da crise da Covid-19 no Brasil. A campanha nas ruas (que não pode parar nem em meio a uma pandemia!) dá sinais de que a pandemia acabou, haja vista os inúmeros cumprimentos e sorrisos amarelos sem máscara dos candidatos que, na verdade, só prolongam ainda mais o estado de calamidade atual. Ainda, enquanto deveriam estar dando atenção à situação atual, há prefeitos candidatos à reeleição usando a máquina pública para editar decretos que flexibilizam a prevenção, atendendo à demanda de grupos, sem responsabilidade com a vida da coletividade. Afinal, indispor-se com a vontade de algum grupo neste período representa para alguns candidatos a possibilidade de não serem eleitos, algo que não se pode cogitar e que está acima de tudo agora. Aliás, a eleição é para prefeitos e vereadores, mas até o Presidente da República e o Governador de São Paulo já estão antecipando as eleições de 2022, usando a vacina como argumento eleitoral junto ao povo. Lamentável!

Estar na condição de ser pensante em 2020 não é tarefa fácil, requer muito equilíbrio para se distanciar da racionalidade e abstrair da realidade. Ser pensante e ter memória do que aconteceu nestes 8 meses de pandemia (decisões ao sabor das pesquisas de intenção de voto, atentados ao SUS, desmonte da Ciência e Tecnologia, condutas autoritárias, teorias conspiratórias e atitudes contra a vida) é demasiado desafiador. Mas lembrem-se, nossas lideranças: responsabilidade e memória estão intimamente ligados! E mesmo com fama de ter memória curta - embora façamos questão de esquecer isso - existem coisas que os brasileiros, infelizmente, não esquecerão jamais.