Desde o tempo do Império Romano (até hoje!) o povo é alvo de governantes e da elite financeira que, por meio de políticas, projetos e programas, visam ao que denominam harmonia social. Tal objetivo muitas vezes impede o conhecimento da verdade, evita questionamentos e previne “revoltas” por parte dos governados. Em cada tempo, os mandatários e grandes banqueiros usam de estratégias, táticas e tecnologias que estão à disposição para satisfazer as necessidades e os desejos básicos da população e, assim, continuar com seu projeto de poder e fortuna: do “pão e circo”, passando pela censura e por “cortinas de fumaça”, até o uso de expedientes ilegais e inconstitucionais. Ressalte-se que esse modus operandi não cessa nem durante a pandemia. Pelo contrário, também é utilizado como subterfúgio para os poderosos enquanto os demais estão distraídos.

Recentemente, assistimos a dois episódios de como a estrutura estatal e até mesmo o Judiciário podem ser usados com a finalidade de encobrir da população informações e fatos de interesse público. O primeiro diz respeito ao caso dos “Guardiões do Crivella”, numa referência ao prefeito do Rio de Janeiro, em que funcionários da Prefeitura mantinham escalas de vigília em hospitais públicos a fim de impedir o trabalho da imprensa. Os servidores com salários mais altos do que de um enfermeiro atrapalhavam entrevistas, impedindo que cidadãos denunciassem os problemas do sistema de saúde Pública do Rio. O segundo episódio trata-se da censura prévia pela Justiça ao Jornalista Luís Nassif, do Jornal GGN, ao qual foi exigida a retirada do site - sob pena de multa diária de dez mil reais - de 11 matérias referentes ao Banco BTG Pactual, cujo um dos fundadores é o atual Ministro da Economia, Paulo Guedes. As matérias tratavam de assuntos sensíveis denunciados pelo veículo de comunicação, a saber, corrupção, sistema de previdência, venda de créditos e compra de títulos. 

Mas nem todos os estratagemas são tão explícitos. Muitos deles se valem de “cortinas de fumaça” para disfarçar o real problema ou desviar a atenção da mídia e dos cidadãos. A fim de encobrir a queda do PIB em quase 10% e a volta do país à recessão ou esconder os escândalos de corrupção envolvendo amigos e familiares pode-se, por exemplo, lançar uma nova cédula de dinheiro (que só vai facilitar pagamentos/propinas de práticas ilícitas em espécie) ou atacar a imprensa no portão do Palácio do Alvorada (a fim de que as agressões sejam mais comentadas do que as falhas na gestão). Pior do que isso só seria lançar mão de expedientes ilegais e inconstitucionais, ferindo o Princípio da Impessoalidade e se valendo do recriado Ministério das Comunicações (que mais se parece com um Ministério da Propaganda) para melhorar a imagem pessoal de um Presidente.

Precisamos de pão (a preço justo). E precisamos de circo (lazer de verdade e cultura acessível a todos). Aliás, são direitos sociais básicos que precisam ser assegurados pelo Estado. Porém, também precisamos de gestão pública eficiente e transparente. Precisamos de saúde, segurança, educação e trabalho. E que não sejam com finalidades secundárias, como “passar a boiada” enquanto a pandemia se agrava ou nos divertir enquanto os gestores públicos se omitem, mas sim com vistas a assegurar direitos básicos de sobrevivência e ascensão ao povo.