A Educação “é a prioridade das prioridades constitucionais”, sentenciou o Ex-Ministro do STF, Carlos Ayres Britto, durante voto na Suprema Corte. No entanto, a Comissão Externa da Câmara dos Deputados (Comex), que acompanha o Ministério da Educação (MEC), apontou que “Até julho de 2020, nenhuma medida havia sido tomada pelo governo federal no sentido de promover a educação do campo, de povos indígenas, quilombolas ou a educação inclusiva durante a vigência das políticas de isolamento social”. Apesar da Constituição reservar o devido tratamento à Educação, ela é uma das crises atuais mais importantes dentro da maior crise do Brasil, a do novo Coronavírus.

Dia após dia nos deparamos com uma lista de notícias que versam sobre retrocessos na área advindos de decisões das autoridades. A exceção fica por conta das notícias que tratam das inovações criadas pelas universidades e suas contribuições para a sociedade durante a pandemia, dando-nos esperança em meio ao caos. Sim, há, ao mesmo tempo, caos e esperança em meio à crise. Um caso em particular ilustra isso. Trata-se do Epicovid, maior estudo brasileiro coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em rede com outras 12 instituições federais e Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que investiga o número de infectados pela Covid-19, importante para identificar a magnitude do problema e conter a disseminação do novo Coronavírus. Porém, na contramão do mundo, o Ministério da Saúde afirmou não ter interesse em manter o financiamento da pesquisa, podendo comprometer a viabilidade dos novos estágios do estudo.

Não bastasse o desleixo em relação à pesquisa científica, há autoridades das esferas municipal, estadual e federal defendendo que as aulas presenciais da rede de ensino básico retornem o quanto antes. Sabe-se das dificuldades enfrentadas por professores e alunos no que se refere a recursos técnicos e tecnológicos, os quais precisam pagar para ter acesso à internet, uma vez que poucos estados disponibilizaram kits ou recursos para tal. Sabe-se também – pois faço parte deste grupo – que a vontade dos professores é voltar para as salas de aula físicas! Mas essa realidade parece ser conhecida apenas por quem é afetado e busca ultrapassar os obstáculos do ensino-aprendizagem remoto. Nem o MEC sabe ao certo, pois "não dispõe de informações acerca do número de alunos da rede pública de ensino do país que estão tendo tele-aulas e aulas on-line até o momento", aponta o relatório da Comex/MEC. Diante disso, a preocupação com a volta às aulas só aumenta, visto que nem os profissionais da saúde têm disponíveis equipamentos de proteção individuais (EPIs). Antes de tudo, é necessário dignidade, segurança e responsabilidade, ou seja, salário em dia aos professores da rede básica de ensino, EPIs disponíveis para todos e protocolo de retorno certificado por epidemiologistas.

Mesmo sabendo que a Educação é um dos dispositivos que permite a ascensão social, cultural e econômica, que qualifica a crítica, o raciocínio e a compreensão do mundo, que possibilita transformar vidas e realidades, ela segue não sendo tratada como uma prioridade. A última notícia que estampa os jornais e portais refere-se à propositura ao Congresso de corte de investimentos pelo governo federal de 18% a 22% no orçamento das universidades e institutos federais para 2021, inviabilizando as atividades de ensino, pesquisa e extensão. É a pandemia sendo usada política e ideologicamente como bode expiatório para justificar cortes de bilhões de reais em áreas estratégicas para a nação. Mais uma vez, Darcy Ribeiro estava certo: “a crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. E a pergunta que fica é: Quando a Educação no Brasil vai ser levada a sério?