“O tempo não existe, é apenas uma dimensão da alma, o passado não existe, se não o é mais; o futuro não existe, se ainda não ser; o presente é apenas um instante inexistente, de separação entre o passado e o futuro.”  – Santo Agostinho

Foi com esta concepção de Agostinho que conclui a coluna passada e é com ela que escolho iniciar esta porque acredito que esta noção sobre o tempo nunca foi tão pontual. Temos percebido através da vivência e também por meio de leituras, analogias, interpretação do cinema que nos últimos tempos, o capitalismo opressivo nos socou garganta abaixo o mito da produtividade. Chegamos ao ponto de sermos treinados concebermos que o tempo só tem valor se for bem remunerado e assim, nesta corrida louca, precisamos otimizar cada instante de nossas quiméricas 24 horas diárias com ocupações que possam aparentar adequação aos olhos da sociedade. 

Não bastasse vivermos isso tudo enquanto adultos, estendemos uma rotina sem janelas para respiros aos pequenos. As crianças estão embargadas com agendas deste modelo alucinado de produtividade de produtividade. Além da Escola que antes já dava sinais de inadequação e agora precisa urgentemente de um propósito e adequação; os miúdos passavam os dias em torno de artes marciais, o “bom e velho” futebol, cursos de línguas estrangeiras, aulas de reforço – quem dera que fossem aulas de lógica, filosofia, arte... - natação, banho e cama – no dia seguinte, tudo de novo. Tudo mecânico e nada criativo.

Somos uma geração desagregada. A tribulação para optar onde colocar nossa atenção plena em pontos e pesquisas que acessamos a todo instante, nos impede de formularmos uma ideia que não seja rasteira a respeito de algum assunto ou área do conhecimento humano. Não é de estranhar, pois a diversidade de signos – imagens, textos, palavras, vídeos e informação em geral – que percebemos e acessamos a cada dia é imensamente maior do que a porção que um ser humano na idade média conseguia obter no decorrer da vida. No tempo da efemeridade, carecemos de ter a maestria para ler os antigos catálogos telefônicos todos os dias.

Assim surge a célebre fala: “Eu só queria ter tempo…”

O tempo some, como se possuíssemos um medidor de tempo pessoal, como no filme “O Preço do Amanhã”, no qual cada pessoa dispõe de uma life time que, quando gasta, apaga e o tempo de vida também. Muito bem, permanecemos permutando nosso tempo por horas no trânsito porque não estamos fazendo escolhas conscientes de como estamos vivendo a vida, horas nos dispositivos móveis consumindo conteúdos irrelevantes, horas em trabalhos sem propósitos, horas extras por um pouco a mais no final do mês que será gasto em investimentos mal planejados, horas em frente à TV para assistir muita coisa que não agrada e muito menos ajuda em nossa jornada; e muitos outros momentos, em que, se o contador de tempo pessoal realmente existisse, certamente iríamos nos lamentar ao final da jornada.

O tempo é para ser vivido! Com rota qualificada, pode valer a pena, basta escolhermos conscientemente isso. Há anos pedimos mais tempo livre, e a pandemia nos entrega esse tempo. É certo que ainda estamos assimilando o que fazer com ele. E isso não é uma perturbação e sim uma solução que está disponível no sistema do universo para acessarmos assim que decidirmos.

Dica: Livro de Nuccio Ordine, A Utilidade do Inútil, um hino à cultura e um julgamento ao capitalismo tirano que absorvemos sem pensar.