Ninguém queria uma retrospectiva do ano de 2019, marcado por retrocessos em políticas púbicas e por mortes na cidade de Brumadinho, no Centro de Treinamento do Flamengo e de figuras marcantes como Ricardo Boechat, Beth Carvalho, João Gilberto, Paulo Henrique Amorim e Fernanda Young, entre outros. Então chegou 2020! Prometia ser apenas mais um ano de retrocessos políticos, sociais, culturais e econômicos, tendo em vista a condução de 2019 pelos gestores públicos eleitos. Mas ele nos surpreendeu, positiva e negativamente!

2020 nos trouxe uma nuvem de gafanhotos (!?), um ciclone-bomba (!?), os incêndios na Amazônia e no Pantanal, uma “quase guerra” entre Irã e EUA (!), uma pandemia (!) e um inacreditável movimento mundial antivacina (!). Não é à toa esta retrospectiva já estar sendo feita em novembro. Só estamos fazendo de tudo para que este ano vá logo embora. Inclusive, até a árvore de natal já está montada e a agenda para 2021 providenciada. Vale lembrar que 2020 ainda impôs as mortes do compositor Aldir Blanc (de Covid-19), do escritor Rubem Fonseca, do jornalista Gilberto Dimenstein, da pioneira da agroecologia Ana Maria Primavesi e do Cacique Aritana Yawalapiti (de Covid-19). Fizeram a passagem, porém deixaram um legado que nos dá perspectivas para fazermos a nossa regeneração. É desse ponto que pretendemos partir daqui para frente, tanto aqui no texto quanto na vida.

Para que a tão esperada catarse pós-pandemia não seja adiada para um próximo evento surpreendente e inesperado, precisamos potencializar os aprendizados, as memórias e os feitos de todos que nos deixaram e dos que, diariamente, ainda quebram paradigmas em todas as áreas na nossa sociedade, a exemplo das cientistas brasileiras Jaqueline de Jesus e Ester Sabino, que sequenciaram o genoma do novo Coronavírus em apenas 48h e disponibilizaram ao mundo o resultado para pesquisas sobre o vírus. Da Saúde a Educação, das Artes ao Jornalismo, da Agricultura a Literatura. Que a herança pragmática e simbólica dos que nos deixaram e as marcas do que aconteceu neste ano nos façam questionar sobre as mudanças depois de tudo isso, sobre o que restou de humanidade e de perspectivas para continuarmos.

Perspectivas diante do caos? Sim. Pois só assim conseguiremos ultrapassar este momento (que ainda não acabou) com esperança. Recuperemos o fôlego de tanto pedir “Use máscara!” a fim de resistirmos aos próximos desafios. E resistir implica planejar modos de ação individuais e coletivos. Aliás, nunca os modos de ação coletivos foram tão decisivos como na pandemia. Mas embora devamos planejar, não planejemos tanto e vivamos mais o curto prazo. Afinal, em 2020 foi comprovado que, nem para a pessoa mais poderosa, rica, prevenida ou organizada, nada está sob controle.