Fazia frio, chovia e a terra era desconhecida. O adversário levava vantagem em quase tudo: tinha conhecimento da causa, já havia participado de muitas guerras, conhecia bem o campo de batalha e tinha minado as chances da nossa vitória ainda quando estávamos em nossa casa. Foi um verdadeiro choque quando fomos surpreendidos na batalha anterior, e não tenho vergonha em dizer, a surpresa do ocorrido abateu muitos, ficamos desolados. Parecíamos que não teríamos saída, mas foram exatamente nessas horas de sofrimento, de desespero, que nosso exército deixou tudo de lado e partiu em busca de redenção. 

Se os deuses estavam a nosso favor? Não sei dizer com clareza, com a fé não se brinca. Se os capitães e generais, comandantes das guerras, estavam contra nossa investida? Não posso responder por eles, e tampouco sei de seus caprichos, pois só sei de poucas coisas dentro de uma trincheira, alguém perde e alguém ganha. E desta vez, nós ganhamos. Nosso escudo rugiu, nossa bandeira tremulou, impôs respeito em pagos distantes, foram soldados valentes, destemidos, que empurraram para trás o inimigo em sua casa e conquistaram a vitória. Foram três golpes, em três momentos distintos. O primeiro foi certeiro, atingiu com tamanha força que deixou o adversário tonto, tanto que nos momentos seguintes já foi possível desferir mais um golpe, golpe este que deixou o combatente acordado, mas já cambaleando. A vantagem obtida dava adeus ao seu antigo dono e nos encontrava de braços abertos. Foi questão de tempo para que tivéssemos uma brecha e finalmente déssemos o golpe misericordioso. Eu disse, foram três golpes na última batalha, mas isso não demonstra quantos golpes levamos nessa trajetória de percalços. 

Tornamos-nos duros, desconfiados, por muitas vezes receosos, não tínhamos mais a euforia de outrora. Alguns podem dizer que as guerras do passado foram desleais, injustas. Alguns podem dizer que sempre acreditavam, tinham esperança, mesmo nas intempéries. Mas o que sabemos é que estávamos com o rugido preso na garganta. E foi logo contra o Dragão, em uma noite em que São Jorge pouco pode ajudar, como disse no começo da história, fazia frio, chovia, não havia luar, os draconianos não se dão bem quando o assunto é água. Bem, os Leões também não fazem questão, porém aprenderam a se adaptar rápido, ainda mais em terreno adverso. 

Nesta Guerra, que bem poderia ser a Guerra dos Tronos, quem se deu bem foi o União Frederiquense, que teve que somar todo o conhecimento adquirido em quatro anos de batalhas e derrotar o Brasil de Farroupilha para buscar a última vaga existente para a Primeira Divisão do Campeonato Gaúcho de 2015, a tão sonhada Série A, para combater os grandes, os Donos do Estado. Nesta Guerra das Cadeiras, ainda falta muito para que o Leão da Colina, aquele mesmo, com jeito interiorano, que muitos julgam que nem deveria sair de seus domínios, chegue ao Trono, porém este Leão está se fazendo ouvir, pois não está sozinho, conta com muitos outros em seu grupo, que tomando de empréstimo mais uma vez, manda um recado a todos os presentes na próxima edição do Gauchão: Ouça-me rugir!*

 

 

*O texto utiliza alguns elementos que envolvem a série A Canção de Gelo e Fogo, adaptada a televisão com o nome de Game of Thrones, (Guerra dos Tronos) escrita por George R.R. Martin. A história, resumidamente, retrata uma guerra que perdura por anos, em que famílias disputam o reino. Duas delas utilizam os animais Leão (Casa Lannister) e Dragão (Casa Targaryen) como seus respectivos brasões, assim como as mascotes de União Frederiquense e Brasil de Farroupilha, na mesma ordem.

Miguel Scapin