Indo na contramão do consumo exacerbado e da poluição ambiental de uma das indústrias que mais contribui para tal fato, a da moda, os brechós são, além de uma experiência de consumo, uma opção sustentável para o vestuário. 

Foi assim, unindo uma paixão com um pensamento altruísta, de se colocar no lugar das futuras gerações, que Maria Aparecida Carvalho Lima, ou apenas Cida, 53 anos, mãe de um filho, o Jaques, se encontrou dentro de um brechó. Não só se encontrou, como deu vida a um negócio que já tem cinco anos de história em Frederico Westphalen.

—Por que tu sempre vai na contramão? As pessoas querendo comprar roupa nova e tu vai vender roupa velha?—, brincou o marido Mauro quando soube da ideia de Cida. Em 2014 essa insegurança quanto ao novo projeto até que fazia sentido, porém, ele não contava com a glamourização que os brechós passariam a viver.

O estilo de consumo que é comum na Europa e na América do Norte, por muito tempo não era visto com bons olhos por aqui. Aliás, ainda hoje Cida diz se confrontar com ideias de que as roupas podem carregar “energias ruins” ou algo do tipo.

“Peças de brechó não tem energia pesada, mas peças oriundas de trabalho escravo têm”, a frase resume um pouco do cenário já que, na maioria de nossas compras se quer sabemos de onde essas peças vieram. No brechó cada roupa, sapato ou acessório conta uma história, fez parte da vida de alguém e terá um novo destino (que não o descarte) a partir daquele momento, o que é incrível.

Do fim, um novo começo 

Natural de Iraí, Cida carrega várias referências, como do tempo que morou em Chapecó, Santa Catarina, onde trabalhou em uma galeria de artes. “A gente fazia leilões pelo Estado de Santa Catarina inteiro”, conta. Foi lá, inclusive, que ela aprimorou seu gosto por artigos antigos e o conceito vintage. “Como trabalhei nisso, sempre estudei muito sobre o assunto”, diz ela. 

Em 2001 Cida se mudou para Frederico onde passou a trabalhar com uma empresa de telefonia que por muitos anos fez sucesso na cidade. “No Rio Grande do Sul a gente atingia todas as metas e o pessoal nos recebia muito bem”, compartilha. Como todos as fases, essa teve um fim. E do fim de uma história um recomeço que conquistou a empreendedora. 

Em 2014 o casal encerrou o trabalho na loja e após três meses o Desapega by Cida nasceu. “Eu tinha mil e uma ideia na cabeça”, relembra. Eis que uma se sobrepôs a todas as outras. “Acordei um dia e disse: brechó. E foi. Foi ele (Deus) quem disse”, revela. 

Antes mesmo das roupas, o trabalho começou pela escolha do local e dos móveis. Como uma boa amante da arquitetura e da decoração, ela montou o seu cantinho do zero, restaurando móveis e deixando tudo com uma cara única: autêntica. Com a descoberta da novidade as amigas mais que apoiaram Cida, impulsionaram o negócio ao desapegar de rupas e acessórios que fizeram parte do acervo do brechó. Na inauguração mais de 150 pessoas marcaram presença no evento. 

As amigas viraram clientes, as clientes viraram amigas e o Desapega by Cida se tornou um ponto de encontro e compartilhamento de experiências, histórias, alegrias e roupas!

Desapega by Cida

Seguindo o conceito do desapego, de nos livrar de coisas que já não fazem mais sentido em nossa vida, o brechó Desapega by Cida é o lugar perfeito para fazer isso. Um ambiente aconchegante e acolhedor, onde o consumo não se justifica por si só, mas sim, uma experiência da compra: provar, testar, ousar, se divertir, criar novas amizades, e assim se descobrir. 

Aí está uma das grandes vantagens dos brechós. Por conta do preço das peças é possível se permitir e ousar, comprar roupas diferentes que talvez não investiríamos em outros momentos por conta do valor monetário. 

— Eu queria um brechó com cara de boutique—, conta Cida. E foi isso o que ela fez. A decoração é um dos pontos altos do Desapega, cheio de referências do universo vintage e elementos que remetem aos anos 80 e 90. 

Garimpar faz parta da vida de todo o bechó, porém, no Desapega tudo fica mais prático pois as peças passam por uma curadoria de Cida, que além de ter bom gosto seleciona as de melhor qualidade. Com o brechó na cidade se quebrou um paradigma, pessoas de todas as classes viraram clientes e as peças de Cida começaram a aparecer em grandes eventos. 

— Eu sempre gostei de roupas de marca, roupas boas, mas comprava elas em brechó ou em uma grande liquidação. Se eu tenho uma peça eu quero que ela dure, eu tenho uma história com ela. Como consumidora eu sentia falta disso, tudo era muito comercial, não importava o acabamento e qualidade, só importava a roupa que estava na moda—, diz ela. Com o brechó, é possível oportunizar esse tipo de compra para as clientes, sem falar em todo a importância da sustentabilidade. 

— A indústria da moda é uma das que mais gera lixo e resíduos. Então tu poder mudar alguma coisa, customizar e dar uma sobrevida para as peças é a melhor coisa que tem, para uma peça boa e bem feita— chama a atenção.

Novos projetos 

Seguindo a pegada da sustentabilidade e de uma paixão que há um tempo estava adormecida, Cida realizou um curso de corte e costura pelo Senac e a partir de agora começa a produzir peças exclusivas. “Eu sempre adorei costurar, quando adolescente eu fazia as minhas roupas para ir nas festas”, conta. Agora ela reencontra essa paixão como uma forma de agregar ainda mais novidades ao seu trabalho. 

— Eu tento reaproveitar o que já existe, fiz o curso de corte e costura por isso, para poder trabalhar com tecidos e matérias que já existem. É aí que vou colocar minha energia agora, estou apaixonada—, revelou ela ao falar da customização.

Cida ainda chama atenção para o consumo excessivo e a relação entre o custo benefício das peças e qualidade. “Vale a pena investir em peças boas, que vão durar. Por exemplo um jeans bom, de boa marca e acabamento. Divide essa calça por quantos dias você vai usar. Sempre tem que fazer essa cálculo para que essa compra valha o investimento. A partir do momento que a gente enxerga nossas compras como investimentos, paramos de consumir exageradamente”, sublinhou a nossa Bella.

Além disso, é importante considerar que você tenha peças que realmente possuam significado e uma história a ser contada. —É como eu disse, se eu compro uma roupa eu quero que ela dure! Não podemos atentar somente ao fato do que a moda nos impõe. Como consumidores precisamos também nos preocupar com o planeta. Portanto, é possível sim apostar nas roupas de brechó. Assim como, também é válido, adquirir peças novas, de qualidade e que possam durar mais —explica.

Para você, ser Bella é?

— Beleza para mim é ser autêntica, é ser você. A partir do momento que você não fica querendo seguir padrões que não tem nada a ver contigo, ai tu é bela! A beleza está no ser, se você é autêntica você é já é linda—, finaliza.