Os vírus são transmitidos através de gotículas provenientes de tosse ou espirro, mas podem também ser carregadados para o nariz, a boca e os olhos após o contato das mãos e de objetos com superfícies contaminadas. Até três quartos das pessoas portadoras de coronavírus podem ser totalmente assintomáticas, incluindo as crianças, e a máscara é uma das medidas que pode impedir a transmissão da infecção. Sua utilização é recomendada pela Organização Mundial de Saúde em ambientes onde o distanciamento físico não é possível, no entanto, seu uso generalizado apresenta alguns desafios, especialmente entre crianças.

Crianças com menos de 2 anos de idade apresentam vias aéreas mais estreitas e são incapazes de retirar a máscara sem ajuda. Desse modo, nunca devem utilizar máscaras devido ao risco de sufocação. Crianças com atraso mental ou distúrbios de comportamento podem apresentar mais dificuldade em tolerar a máscara e não devem ser obrigadas a utilizá-la.

Algumas crianças costumam encostar na máscara com frequência, vestem a mesma por horas sem troca e não higienizam as mãos toda vez que a tocam. Nestas situações, ao invés de estar protegendo, a máscara pode estar paradoxalmente aumentando o risco de contaminação. Estudos demonstram que o coronavírus pode ser detectado na superfície da máscara por até 7 dias.

Além disso, nem toda criança possui coordenação motora suficiente para manipular, colocar e retirar a máscara corretamente. Para que isto ocorra, são necessárias orientação e supervisão por parte dos pais, o que nem sempre é praticável.

Nestes casos, é mais vantajoso não usar a máscara e optar por outras medidas preventivas como higienização frequente das mãos e distanciamento social. Durante a epidemia de H1N1 (gripe suína) em 2009, observou-se que incentivar a população a lavar as mãos reduziu a incidência de infecção mais significativamente do que a utilização de máscaras.

Quando se tratam de crianças, outras questões também devem ser levadas em consideração. Máscaras cirúrgicas estão disponíveis em tamanho infantil apenas para crianças maiores que 3 anos, devem ser descartadas após um único uso e perdem sua proteção ao se umedecerem. As máscaras de tecido são uma alternativa e podem ser confeccionadas de acordo com o tamanho do rosto da criança, mas sua efetivdade em filtrar o vírus pode variar.

Outra dúvida que surge é sobre o uso da máscara N95 por crianças. Este tipo de máscara é designado para se ajustar rigorosamente ao rosto e exige um maior esforço respiratório, podendo causar dor de cabeça e cansaço. Desse modo, devem ser reservadas para crianças com risco alto de complicações graves, por exemplo, quando há deficiência de imunidade.

Em suma, entre crianças, particularmente as mais novas, a higienização frequente das mãos continua sendo a medida mais importante para reduzir a infecção por coronavírus, juntamente com o distanciamento físico. Caso o uso da máscara seja plausível, esta deve se ajustar adequadamente ao rosto de modo que seja tolerável e não ofereça riscos. No entanto, mais importante que a sua utilização é o aprendizado quanto a sua correta manipulação, evitando que uma falsa ilusão de proteção seja criada.

Sobre a profissional

Dra. Juliana Sato Hermann é médica formada pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), tem título de Especialista em Otorrinolaringologia pela UNIFESP e Associação Brasileira de Otorrinolaringologia. Possui especialização em Otorrinolaringologia Pediátrica pela UNIFESP e mestrado e doutorado pela UNIFESP.