Toda força e sensibilidade

A mais velha de três irmãs filhas de agricultores, Vera Martins, 48 anos, é natural de Panambi, na linha Faxinal. Neste mês a Mestre, que tem uma vida dedicada a deixar uma das heranças mais valiosas ao próximo – à educação –, se tornou Doutora. E entre pesquisas que guiaram a formação de Vera como profissional e como pessoa, os estudos a respeito do feminismo. Some a isso questões de gênero e comunicação: esta é a nossa Bella da vez! Uma mulher que defende a igualdade entre as pessoas.

A leitura como veículo

Ao receber seu primeiro livro em forma de presente por uma professora, Vera descobriu e se apaixonou pela leitura. O universo quase que mágico apresentado a ela, não precisava ter tema específico. Mas a diversidade apresentava a ela um novo mundo cheio de possibilidades. Foram essas condições, inclusive, que a deixaram inquieta para buscar algo a mais.

Aos 18 anos se mudou para Novo Hamburgo. Foi para realizar a graduação de Relações Públicas.  — Esse movimento de saída tem várias questões. Na época, na minha cabeça, eu estava indo porque queria estudar, mas tinha a ver também com uma vontade de andar pelo mundo, conhecer mais coisas! A ideia de não ter escolhas me dava um certo incômodo. Eu tinha muito medo, óbvio, mas eu fui mesmo temendo —, destacou ela.

Estudou, trabalhou e permaneceu na cidade até 2014, quando então passou em um concurso e retornou para um pouco mais perto das suas raízes. Frederico Westphalen foi o destino escolhido e, desde então, Vera é docente na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus FW.

Feminismo e o mundo

Segundo relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), consideradas as políticas públicas, apesar de ter subido três posições no ranking em relação ao ano passado, o Brasil precisaria de mais 59 anos para mudar a cabeça das pessoas e conquistar a igualdade de gênero no local de trabalho. O número pula para 257 anos, quando comparado com os 153 países contemplados no estudo que estimou este ranking. Conclusão: precisamos evoluir neste quesito, pois estamos atrás da maioria dos países.

Os números comprovam a importância da discussão a respeito das questões de gênero e do feminismo que, por vezes, não é compreendido da maneira correta.Como feminista e pesquisadora, Vera deu sequência aos estudos na área durante o doutorado, quando parou para pensar sobre os movimentos de mulheres nas redes sociais.

“Em conversa com uma amiga também feminista, nos demos conta que esses grupos de mulheres nas redes sociais, de alguma forma, estavam dando uma continuidade a uma ideia que sempre foi do feminismo: a dos grupos de mulheres. Historicamente o feminismo entendeu que para começar algum tipo de movimento, as mulheres precisam se reunir entre elas, conversar entre si e ter consciência da sua história e do seu contexto. Percebemos que, com as ferramentas de hoje, esses grupos realizam uma atualização de um movimento que as mulheres sempre o fizeram”, explica Vera.

Com a persistência da ideia de que nós, mulheres, precisamos conversar mais entre nós mesmas, as barreiras geográficas se rompem e os conceitos se alteram. Vera embarcou rumo à África e lá teve como desafio, além de viver algo completamente diferente, incluir as mulheres de Moçambique em sua pesquisa de doutorado. O caminho até a conclusão do curso foi longo. Mas a vontade por entender mais sobre o universo feminista veio desde cedo.

— Um incômodo sempre me acompanhou, desde muito cedo. Uma expressão da minha vó, que dizia: “para o homem isso não fica feio”. Me causava uma sensação de injustiça esse cerceamento do comportamento. Sou uma pessoa sem dificuldades para me expressar, e por causa desse meu comportamento muitas vezes fui rotulada de coisas que eu não era ­—, conta a professora que, mais tarde, aprendeu o nome daquilo que sentiu por uma vida, por meio dos conceitos teóricos do feminismo. Talvez as gerações mais antigas, não percebam que comportamentos ou atitudes simples, do convívio de um casal por exemplo, posa na verdade colocar a mulher ou uma relação numa condição submissa e de dependência. É contra estes “clichês” estabelecidos no senso comum, que  Vera defende uma mudança.

Transformando o cenário

Para mudar a realidade de desigualdades e injustiças, a educação e informação são uma das bases mais importantes, explica. — Nós precisamos fazer esse acúmulo teórico circular e ser acessível em vários espaços. Qual é a nossa possibilidade de transformação social? Precisamos formar pessoas a partir de outro lugar. Precisamos criar meninas que entendam que a violência não é natural e que elas precisam de uma rede de apoio quando não se calam diante dela, e meninos que entendam que as relações podem ser diferentes, e que o fato dele se comportar de outra forma que não é pautada na violência, na desconsideração das mulheres é o correto e o mais justo: para ele e outras pessoas—, salienta.

Segundo ela é na infância que podemos intervir de maneira educativa para mudar a sociedade como um todo. Importante não desconsiderar a seriedade da infância afirmando que o que acontece nessa época será esquecido ou não será relevante para à construção do todo. O o que acontece é justamente, segundo Vera, o contrário. Quem nunca ouviu crianças chamando outras de “menininha” de maneira pejorativa? A “brincadeira” que por muitos é naturalizada sustenta um julgamento inferiorizado, passivo e fraco da mulher.

“Os estudos de gênero nos trazem esse olhar relacional. Vai nos dizer que do mesmo modo que a gente entende que ser mulher é um aprendizado, uma construção social, isso também vale para os homens. E se nós podemos desnaturalizar isso também podemos fazer o mesmo com comportamento dos homens” avalia a doutora.

Para além disso o exemplo, como no velho ditado, diz mais! É preciso reavaliar condutas. Ter em casa, por exemplo, uma organização que demostre que todos atuam de maneira justa, sem que um ou outro seja sobrecarregado. O movimento feminista de maneira simples não é contra ninguém, pelo contrário, é a favor de todos.

—O problema não é uma mulher querer ser mãe, gostar de cozinhar e costurar como é o meu caso. Não é uma mulher não querer casar, ou querer casar. O problema é você estar recolhida em um destino que te leva só naquela direção. A reivindicação do movimento feminista é que os homens e as mulheres possam ser quem eles querem ser sem pagar um custo social, emocional e psicológico por isso. Se a mulher quer ser mãe que ela tenha todo o apoio de políticas públicas, a parceria do seu companheiro ou companheira, o apoio da família. E que se uma mulher optar por não ser mãe, que ela não seja olhada de uma forma hostil como se ela não fosse uma mulher completa—, finaliza.

Essa foi a última edição do Caderno Bella de 2019, onde contamos a história e luta de vida da Doutora Vera Martins. Nesta sexta-feira, 10, iniciamos o ano com uma edição especial, confira nosso Caderno impresso a partir de amanhã.