Quem já não fez ou conhece alguém que tem o hábito de retirar a parte mofada do alimento e consumir a porção que não foi atingida pelo problema? Entretanto, não é algo recomendável porque a presença do bolor significa que há presença de fungos na comida. Dependendo de como o alimento foi armazenado, alguns fungos podem produzir micotoxinas capazes de causar complicações crônicas, inclusive, câncer.

A nutricionista Caroline Dourado, especialista em Nutrição Clínica, mestre em Gerontologia Biomédica e docente do Curso Superior de Nutrição da URI-FW, explica que retirar apenas a parte mofada extrai apenas os esporos do fungo e não as raízes, que podem estar espalhadas pelo alimento, e nem sempre são visíveis a olho nu.

– Quando vemos o bolor significa que ele está tão enraizado que já se tornou aparente. Existe, por exemplo, a micotoxina patulina, que pode ocorrer em maçãs. A retirada da parte visivelmente deteriorada deste alimento e as imediações reduzem a contaminação, mas não necessariamente a eliminam totalmente –, adverte.

Mofos e os bolores são espécies de fungos filamentosos, tipos de microorganismos que se desenvolvem e possuem capacidade de decompor a matéria orgânica, muitas vezes estragando o alimento e causando danos para a saúde. Podem ter cores diferentes, geralmente, de tons acinzentados, esverdeados, esbranquiçados ou azulados.

Riscos para a saúde

Caroline observa que nem todo o bolor faz mal à saúde, pois alguns tipos são considerados benéficos, utilizados, inclusive, para produzir alimentos sob condições controladas, como os queijos maturados, produtos fermentados de soja e salames. Outro exemplo de mofo benéfico é o do gênero penicillium. Esse tipo de mofo serve para a produção de antibióticos (penicilina), que podem combater diversos tipos de doenças.

– Por outro lado, outros bolores podem produzir substâncias tóxicas denominadas micotoxinas. Dependendo do tipo, as micotoxinas podem ter ação carcinogênica, nefrotóxica, hepatotóxica, provocar puberdade precoce, e até afetar o sistema imunológico. Além disso, os bolores podem causar micoses, alergias cutâneas e respiratórias. É importante ressaltar que para cada tipo de alimento existe um número limite de microorganismos aceitáveis para que não causem mal à saúde –, esclarece.

Alguns casos podem ser mais graves, como os mofos de produtos fermentados, que produzem aminas biogênicas. “Se ingeridas em alta quantidade podem causar palpitação, dores de cabeça, náuseas, vômitos, diarreia, hipo ou hipertensão arterial e, em casos extremos, choque anafilático. Crianças, idosos, imunossuprimidos e gestantes devem ter mais cuidado, pois são mais suscetíveis a contaminantes presentes nos alimentos”, acrescenta a nutricionista.

Dicas para evitar o mofo

Existem algumas dicas para prolongar a conservação dos alimentos, já que os fungos e bolores se multiplicam em determinada condição. O que favorece é a presença de nutrientes, umidade, determinado pH e temperatura. As faixas de temperatura para crescimento de mofos são variáveis de acordo com as espécies contaminantes. “Muitos destes microorganismos têm temperatura ótima para multiplicação em torno de 25ºC, enquanto outros são capazes de crescer em temperatura de refrigeração. Os bolores são mais tolerantes a condições como baixas umidade e acidez. Antes de comprar, verifique bem o alimento se não tem sinais de mofo”, ensina.

Caroline lembra que o cuidado pode evitar que a pessoa leve para casa um alimento que possa contaminar outros. “Compre somente o necessário; evite adquirir grandes quantidades de alimentos que vão ficar muito expostos e suscetíveis a estragar. Para produtos industrializados, observe sempre o prazo de validade e evite comprar alimentos estragados, com embalagens violadas ou amassadas. Se por ventura o produto estiver dentro do prazo de validade e apresentar sinais de contaminação por mofo e bolores, deve ser descartado”.

Em casa é importante ficar de olho nos prazos de validade, deixando na parte da frente do armário e geladeira, os alimentos que necessitam ser consumidos primeiro. “Se tiver alimentos mofados em casa, retire da despensa ou geladeira e limpe bem o local para evitar que infecte os outros; vinagre ou álcool podem ser utilizados. Verifique, também, a umidade da sua casa; se excessiva pode facilitar a proliferação de alguns fungos; o ideal é até 40%”.

Para melhorar a conservação, os alimentos podem ser protegidos com capas, vasilhames ou filmes plásticos para não deixá-los expostos e, assim, protegê-los dos esporos. “Não refrigere os alimentos não perecíveis; armazene em local arejado e em temperatura ambiente. Atenção para guardar cada alimento em seu lugar adequado e aumentar sua vida útil. Produtos perecíveis e que estragam com mais rapidez, como carnes e produtos lácteos, devem ser guardados imediatamente na geladeira e na parte superior. Pães, biscoitos e grãos secos como feijões, farinha, arroz, entre outros, devem ser guardados em recipientes bem fechados. Verduras e legumes que não foram cortados podem ficar na parte inferior da geladeira, nas gavetas. Já os cortados devem ser guardados em potes fechados e na parte superior do refrigerador. Observe no rótulo a forma de armazenagem orientada pelo fabricante”, finaliza.