Liberdade. É assim que Carla Cocco Silva Dallanora, 27 anos, define a vida no interior. Acredito não existir melhor termo para conceituar a rotina de quem tem o privilégio de estar perto da natureza, respirando ar puro e ouvindo o som dos pássaros. Senti-me livre como tal chegando até a propriedade de Carla, localizada em Seberi.  É realmente libertador não estar cercado de automóveis, prédios, construções, concreto.

Ao longo da viagem até a casa de Carla, o cinza foi sendo substituído pelo verde da grama, das árvores e do azul do céu. Até ele, quando fica cinza, no interior, é mais bonito. Acredito que seja porque vem acompanhado do cheiro da terra molhada. 

Chegando lá e descobrindo a fundo a história da nossa Bella, tudo fez ainda mais sentido. Após desbravar o desconhecido na cidade, Carla despertou para as potencialidades de sua terra natal que, apesar de estar presente em suas melhores lembranças da infância, não era uma opção para a carreira profissional. Isso até ela apostar na suinocultura como principal atividade econômica. A ideia deu certo, já recebeu premiação estadual e serve de inspiração para outras mulheres do campo. 

Visão empreendedora

Apesar de ter sido criada na propriedade do interior, ajudando os pais na lavoura, Carla não enxergava seu futuro no local. “Como a maioria dos jovens, quis buscar algo novo, trabalhar fora”, conta. Na época, conseguiu emprego em uma construtora de Seberi, onde permaneceu por um tempo.

Em seguida conheceu seu marido, Samuel Dallanora, e passou a trabalhar com ele no mercado da família. Ainda assim, não era aquilo que deixava a jovem realizada. Sentia falta da tranquilidade do interior. 

Formada em Gestão Ambiental com pós-graduação em Licenciamento Ambiental, Carla, que nunca havia trabalhado na área por insegurança, enxergou uma possibilidade de mercado em 2014, quando um frigorífico chegava à cidade. Na época, ela cursava Tecnologia em Agronegócio pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), e a formação foi um propulsor importante para que materializasse suas ideias. 

Em 2014, um ano antes de concluir sua formação, colocou um projeto da faculdade em prática: um crechário destinado à suinocultura. Foi ali que a ficha caiu. Seria possível aliar o conhecimento acadêmico adquirido ao longo dos anos com a prática profissional e o melhor, no local em que não só lhe proporcionava recordações afetivas como também a tão sonhada liberdade. 

— Sempre tive a opção de trabalhar aqui, sempre tive tudo o que eu quis, mas pra mim não era o suficiente. Eu ficava pensando, “imagina eu ter que ficar ajudando o pai na roça?!”. Como se aquilo fosse ruim. Precisei sair daqui para perceber como é a realidade —, concluiu. 

O aprendizado ainda beneficiou os pais, que passaram a evoluir com o conhecimento trazido por Carla da academia. “Aqui ou você evolui ou para. É a mesma coisa com os suínos e em todos os setores do interior. Ou você evolui e cresce com a tecnologia, ou para, e a gente conseguiu caminhar junto com ela”, afirma.

O segredo

O crechário administrado por Carla tem capacidade para mil suínos, que chegam após o desmame. O local funciona como um intermediário e os animais ficam cerca de 49 dias na propriedade. Nesse período, Carla alimenta e medica todos eles, o trabalho nunca para.

Existe apenas um intervalo de sete dias, o chamado vazio sanitário, até que outro lote chegue. Desde o início, a parceria do negócio se deu com a integração para a Suinocultura Acadrolli, de Rodeio Bonito, empresa com a qual Carla se identificou em meio às exigências de produção.

Mulheres à frente do seu tempo

A Bella, que já havia até sido princesa de uma das edições da feira da cidade, precisou aprender a lidar com os comentários e julgamentos alheios de quem não acreditava que uma mulher poderia estar à frente de tal negócio. “As pessoas diziam: capaz que ela vai conseguir cuidar dos porcos, com aquele cheiro, ela não vai ter força”, relembra. 

Pois, mais que dar certo, o negócio virou exemplo para muitas mulheres. Ainda hoje a propriedade recebe visitas de pessoas que querem aprender mais sobre a iniciativa. Após receber duas premiações, uma a nível nacional, Carla conseguiu se enxergar também como um espelho. 

— Depois desses dois prêmios, vejo que fui inspiração pra bastante gente aqui perto de nós mesmo. Muitas mulheres estão criando coragem. Acho que o que faltava para muitas mulheres terem um pulso forte nessa área era coragem. Essa é uma atividade muito masculinizada, como se as mulheres não fossem conseguir dar conta. E a gente consegue, sim! Nós somos fortes também—, enfatiza.  

A tarefa não foi fácil e ainda mais difícil no início, mas ela deu conta. “Hoje, na parte de suínos ,eu e a minha mãe já entendemos no olhar dos porcos o que eles precisam”, pontua. 

— O empoderamento feminino foi tudo de bom que aconteceu pra sociedade. Até tempos atrás as mulheres tiveram que seguir o que o marido mandava, e no interior acho que era ainda mais forte isso. A mulher ter poder de falar, de fazer

Reconhecimento estadual

No último ano, Carla ganhou duas premiações por seu trabalho. Uma delas de sua cidade natal, Seberi, o prêmio Mulher Cidadã. O outro foi o 6º Prêmio Vencedores do Agronegócio 2018, promovido pela Federasul. Ela recebeu o Troféu Três Porteiras durante o evento Tá na Mesa, que aconteceu em Esteio, na Expointer.
No total foram mais de 40 cases inscritos no concurso que premia projetos de sucesso do segmento de agribusiness gaúcho, considerando critérios como inovação, estratégia, marketing e resultados. Carla concorreu com todo o Estado e foi a vencedora. “Foi um evento importante para a vida. Eu nunca imaginei ganhar um prêmio desses”, confessa.