A UNSECO reconhece a Universidade de Karueein, no Marrocos, como a primeira universidade do mundo. Ela foi fundada no ano de 859 d. C. Esse reconhecimento está associado ao sentido moderno que se da a uma universidade. Antes dela, temos outras importantes experiências de “ensino superior” no mundo. O que dizer da Escola de Escribas dos Sumérios Eduba, criada em 3500 a. C. na antiga Suméria? Que fantástica experiência humana, constituída há a mais de 5000 anos. Que tal a Universidade de Nalanda, na Índia, fundada no Século V, onde estudavam 10 mil pessoas e havia 1.500 professores. Ou a primeira universidade árabe, fundada em 670 d. C., conhecida com a Mesquita de Cairuão, na Tunísia. Nela se estudava astronomia, teologia, matemática, medicina, botânica, etc. Na Europa a primeira universidade é a de Bolonha, criada em 1088, na Itália. Da África podemos apontar o exemplo da Universidade de Tombuctu, fundada em Sankore, atual Mali, ainda no Século XII. Vários outros casos poderiam ser invocados como exemplos das “primeiras” universidades no mundo. Essas primeiras instituições universitárias possuíam em comum o caráter elitizado e o fato de estar sob domínio da igreja. Símbolo da universidade de Bolonha, extraído do site da referida universidade. Fonte: http://www.unibo.it/it No continente Americano a primeira universidade é a de Santo Domingo (UASD), criada pelo Papa Paulo III em 1538, na República Dominicana. Sua criação fez parte da estratégia colonial espanhola, que ao deparar-se com complexas civilizações na porção de território que lhe coube, teve que se impor militar, pela força das armas e também culturalmente, pela força das ideias. Assim, os espanhóis, logo de sua chegada em várias partes do continente, além de fortalezas com fins bélicos, também constituíam universidades, com o mesmo propósito: garantir seu domínio sobre os povos que aqui viviam. Vista de um dos portões de acesso a UASD, destacando a data da fundação. Nesses termos, as primeiras universidades de nosso continente compunham parte de uma minuciosa estratégia de dominação. Pode-se argumentar que um de seus mais importantes propósitos era demonstrar aos nativos a superioridade cultural, científica e técnica dos colonizadores europeus. Ou seja, em nosso continente a gênese das universidades está fortemente associada a propósitos nada emancipatórios. Por outro lado, é inegável a contribuição das universidades, ao longo de nossa história, ao que se pode denominar genericamente de desenvolvimento humano. Muitos progressos marcantes na história humana tiveram o impulso inicial nas universidades, ou receberam delas contribuições fundamentais. Isso tudo apesar do cerceamento por parte da igreja ao livre desenvolvimento do saber, já que nenhuma teoria ou hipótese poderia ser desenvolvida caso colocasse em questão algum dogma da igreja. Esse cerceamento gerou uma das mais marcantes características da história das universidades e, em sentido mais amplo, da própria história da ciência, que é a busca por autonomia e a possibilidade do livre pensar. A secular batalha da academia, para libertar a ciência do domínio eclesial. A trajetória de grandes pensadores como Galileu, Darwin e tantos outros são exemplos desse parto histórico, que como todo parto, sempre apresenta algum traço de sangue. No Brasil a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho (mais tarde Universidade Federal do Rio de Janeiro) é tida como a mais antiga instituição oficial de ensino superior do Brasil, em funcionamento ininterrupto. Ela foi criada em 1792. Antes dela diversas experiências de ensino superior foram impulsionadas pela Congregação dos Jesuítas, que aportaram importante contribuição para a história da educação no Brasil. Eles criaram o primeiro estabelecimento de ensino superior em nosso país, ofertando o curso de Artes e Teologia, em Salvador – BA, no ano de 1550. Todavia, os Jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759. Em nosso país, no Século XIX, temos a constituição de diversas faculdades isoladas, mas as primeiras universidades serão constituídas apenas no Século XX, após forte impulso advindo do movimento republicano. A primeira universidade federal brasileira, criada como tal, foi a Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), fundada em 1920. Já a primeira Universidade Federal criada fora de uma capital foi a de Santa Maria, fundada em 1960. Entre essas duas universidades brasileiras e a Universidade de Santo Domingo – primeira de nosso continente, temos aproximadamente quatro séculos de diferença! Cabe apontar que a presença de uma universidade não gera necessariamente desenvolvimento regional. É preciso ter cuidado com certos mitos, pois se essa associação fosse verdadeira a America Espanhola teria que ser mais desenvolvida que os EUA, visto que nesse país uma das primeiras universidades constituídas foi a de Harvard, no ano de 1636, ano em que na América Latina já havia 13 universidades em funcionamento, algumas a mais de cem anos. O que dizer da região de Pelotas e sua decadência econômica no Século XX, apesar de possuir uma Imperial Escola de Medicina Veterinária e de Agricultura Prática, desde o ano de 1883. Disso decorrem duas lições importantes para pensarmos o desenvolvimento regional. Primeira: é preciso saber do caráter e dos propósitos dessa instituição, se possuem sintonia com o que se almeja regionalmente. Segunda: uma universidade não tem o poder de uma “varinha de condão”, que tem capacidade de mudar as coisas magicamente com seu toque. Ou seja, a universidade pode ser um dos atores que contribui para o fortalecimento de dinâmicas de desenvolvimento em uma região, mas não se pode delegar a ela a tarefa de, unicamente por sua força, “desenvolver” uma região. Portanto, é preciso que não se alimentem ilusões, mas também são inegáveis as contribuições que a presença de uma instituição pública de ensino superior pode trazer para o desenvolvimento de uma região. Ainda que não seja adequado aceitar sem críticas essa quase “mágica” palavra chamada desenvolvimento, estamos irmanados nessa peleja, que é a construção de um campus da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) na Região Celeiro. Ainda que a situação econômica nacional momentaneamente não seja muito animadora. Ainda que moribundos cavaleiros da política conservadora estejam com armas em punho para golpear a democracia. Ainda assim, seguimos entusiasmados na construção desse projeto. Eu quero um campus da UFFS na Região Celeiro! E você? Para mais informações sobre o Movimento Pró UFFS Celeiro acesse e curta a fanpage no facebook por meio do link: https://pt-br.facebook.com/uffsceleiro Vanderlei Franck Thies Agrônomo e doutorando em Desenvolvimento Rural no PGDR/UFRGS. Integra o GTE do Movimento Pró UFFS na Região Celeiro. Email: vftc@ig.com.br

Vanderlei Franck Thies