Nove meses depois do incêndio que matou mais de 240 pessoas na Boate Kiss, em Santa Maria, os familiares das vítimas continuam buscando respostas. Na última terça-feira, 29 de outubro, o juiz responsável pelo caso e titular da 1ª Vara Criminal da Comarca de Santa Maria, Ulysses Fonseca Louzada, ouviu uma das vítimas em uma audiência realizada na 3ª Vara Judicial de Frederico Westphalen. O jovem, que não quis ser identificado, tem 23 anos e estudava Matemática em Santa Maria e atualmente reside em Frederico Westphalen.

O processo é lento porque depende de centenas de depoimentos e a reconstituição dos acontecimentos somente poderá ocorrer após a limpeza e descontaminação do local. Segundo o juiz, os órgãos competentes já foram notificados sobre a necessidade de descontaminação do prédio da boate que tem cerca de 200 toxinas, sendo 17 substâncias pesadas que podem contaminar a água e o ar.

– Não vou autorizar uma reconstituição sem saber qual o risco que isso oferece para as pessoas envolvidas. É um processo muito complexo e ainda preciso ponderar a importância dessa reconstituição. Estamos correndo com o processo, mas precisamos tratá-lo com muita seriedade, sem atropelamentos. São mais de 200 vítimas fatais e outras 600 lesionadas –, destacou Louzada.

Protesto

A dor e a saudade motivaram os pais de Vitória Dacorso Saccol, 22 anos, a protestar e seguir as vontades da filha caçula que morreu na tragédia ao lado de quatro amigas. A pedagoga Vanda Puccini Dacorso e o marido residem em Palmeira das Missões e levaram cartazes para protestar contra a impunidade em frente ao Fórum de Frederico Westphalen. Com a mensagem “E se fosse com um filho teu?”, a mãe da vítima indagou a demora na resolução do processo.

– Todos os familiares querem justiça, é o mínimo que as vítimas merecem. Estamos nos movimentando para protestar contra a impunidade deste caso, assim como tantos outros em que os órgãos competentes são corruptos e gananciosos. Não pensamos em indenização, queremos que outras mães não passem por uma dor como a nossa. Nossos filhos saíram para se divertir e não voltaram. A Justiça é cega em sua imparcialidade, não mais do que isso. E existe um grande protecionismo em relação à Administração Pública de Santa Maria, e o juiz deve ter as razões dele para passar por cima das mais de 200 famílias destroçadas pelo acontecimento –, lamentou Vanda.

Para lembrar e fazer a vontade da filha e das amigas, Vanda auxiliou a criação da Organização Não Governamental (ONG) Para Sempre Cinderelas, que realiza atividades em creches de Santa Maria que atendem crianças em situação de vulnerabilidade social.

O objetivo da ONG é arrecadar dinheiro para as instituições, alimentos, roupas, materiais de higiene pessoal, entre outros e, possivelmente, criar cinco creches no município, cada uma com o nome de uma das amigas mortas na tragédia.

Natalia Nissen