Alexandre Marques, 38 anos, trabalha, atualmente, com Marketing e Publicidade. Na época em que houve o incêndio na Boate Kiss, promovia bandas para boates e também era roadie de um grupo musical. Ele não estava na danceteria na noite do incêndio.

Arrolado pela defesa do réu Elissandro Callegaro Spohr (Kiko), Alexandre detalhou o processo de promoção e de produção de eventos, como era realizada a contratação das bandas e a preparação das apresentações. Ele foi a primeira testemunha ouvida neste sábado, 4, no plenário do 2º andar do Foro Central I, em Porto Alegre, no quarto dia de julgamento do Caso Kiss. O depoimento durou cerca de cinco horas, sendo um dos mais longos até agora dentre as oitivas realizadas.

Como roadie (responsável técnico) de uma banda (a Multiplay) ele fazia a passagem de som antes dos shows, cuidando também do palco e da luz para a apresentação do grupo. De acordo com a testemunha, esse profissional contratado pelos grupos musicais não tem comando sobre eles.

Alexandre explicou que o principal atrativo de uma banda são os músicos. O uso de pirotecnia serve para deixar os shows mais bonitos, “um glamour”. Esse trabalho é feito por quem produzia os eventos e, na banda Multiplay essa tarefa era dele. “É preciso fazer o reconhecimento do local, ver o pé direito. Para a chuva de prata ou o CO², não. Mas quando envolve o sputnik e outros semelhantes, sim, é preciso fazer um teste, e isso é realizado na passagem de som”.

A testemunha disse que comprava os produtos indoor (fogo frio) por saber que era o artefato próprio para isso e que não adquiriria se não estivesse na caixa. “Isso era uma coisa nossa. Não costumávamos avisar as casas que iríamos usar. Elas saberiam na passagem de som”. E que, certa vez, quando tentou utilizar um sputnik na Kiss, não teve autorização de Kiko. Ele disse que os músicos da banda também não eram avisados sobre o uso dos artefatos.

Outra estratégia utilizada é manter o movimento da pista. “Para quem trabalha com shows, a vantagem sempre era que a pista ficasse cheia para evitar a sensação de fracasso”, afirmou a testemunha, explicando também que, de um modo geral, as pessoas gostam de entrar em locais que estejam movimentados, e não vazios.

Lotação de espaços de show

Questionado sobre a lotação das danceterias, Alexandre falou que, normalmente, existe uma precisão das casas noturnas para calcular o quanto de público pode acessar o local para que o ambiente fique mais “aconchegante”, evitando a superlotação, para, com isso, lucrar com a entrada de pessoas mas também com as vendas no bar.

Perguntado se Kiko era ganancioso, Alexandre disse que nunca teve problemas com o empresário em relação a questões financeiras. Ele não conhecia Mauro Londero Hoffmann e acreditava que o proprietário da boate era Elissandro. O depoimento se encerrou às 15h10min.

Depoimento de Maike Ariel dos Santos

Quando viu a fumaça, Maike Ariel dos Santos achou que fosse gelo seco. Ele estava na Boate Kiss com cinco amigas para comemorar o aniversário de 22 anos de uma delas, na festa ocorrida na madrugada de 27/01/13. Maike foi o único do grupo que conseguiu sair do local com vida. A vítima foi ouvida nesta tarde, no plenário do júri do caso Kiss.

A palavra “fogo”, dita por frequentadores, foi o gatilho para que eles buscassem a saída. Eles saíram de mãos dadas. “Dentro da boate, tinha muita gente. Eu estava esmagado entre as pessoas. Não via mais elas (as amigas), só sentia as mãos”. Acabaram se separando e, quando Maike chegou perto do bar, começou a sentir a fumaça. Esquentou muito rápido e os olhos ardiam a ponto de não poderem se abrir. “Não havia nenhum referencial de visão. E chegou um ponto em que não enxergava mais nada”.

Houve um momento em que Maike apagou. “Recobrei os sentidos lá fora, na frente da boate”, disse o jovem, que acredita ter sido retirado por alguém. Na saída, encontrou uma amiga que havia saído para fumar momentos antes e que, por isso, não estava lá dentro.

Maike ficou quase um mês internado no Hospital de Caridade de Santa Maria, dos quais 10 dias em coma. O quadro de saúde dele chegou a se agravar, a ponto de os médicos dizerem aos pais que não havia mais nada para fazer.

– O meu tratamento psicológico foi conhecer os pais das minhas amigas que faleceram – afirmou, respondendo ainda que não recebeu nenhum apoio ou pedido de desculpas por nenhum dos réus. Maike ficou com algumas queimaduras nas mãos, quase perdeu o movimento dos dedos e precisou passar por tratamento médico. Ele é formado em Desenho Industrial. O depoimento de Maike Ariel dos Santos se encerrou às 16h57min.

Depoimento de Cristiane dos Santos Clavé

Cristiane dos Santos Clavé perdeu 15 amigos naquela noite em que a Boate Kiss pegou fogo. “Parecia uma cena de horror”, afirmou a vítima sobre o cenário que encontrou já fora da boate, enquanto procurava por um amigo de quem se perdeu lá dentro. “Passava por cima dos corpos”, lembrou. Já em casa, Cristiane viu o nome do amigo Leandro (de apelido Chupa) entre as vítimas fatais. Ao contrário dela, ele não conhecia bem a boate e foi encontrado no banheiro. “Eu tenho certeza que ele achou que ali era a saída”.

O depoimento de Cristiane encerrou o quarto dia do júri do caso Kiss. Ela contou que estava de frente para o palco e viu dois fogos de artifício presos no chão quando começou o show da Banda Gurizada Fandangueira. A cortina estava bem perto dos artefatos. Ela disse que viu uma fumaça, que sentiu uma falta de ar muito forte e saiu do local para respirar melhor. “Tinha muita gente, tinha que ficar desviando”.

Quando o fogo começou, ela viu a mão de alguém jogando água na tentativa de apagar. O público começou a correr e a se empurrar. “A fumaça se espalhou rápido e chegou primeiro que eu lá na frente. Estava muito quente, era como o vapor de uma panela”. Cristiane lembrou de uma mesa que estava próxima à porta de saída, como ponto de referência, e conseguiu deixar a boate.

Emocionada, ela lembra que ligou para o irmão, que ficou tomando conta dos sobrinhos. “Quando cheguei no portão de casa, desabei, pois consegui voltar para os meus filhos”. Quando os nomes das vítimas fatais começaram a ser divulgados, ela identificou 15 pessoas, entre amigos e conhecidos. “Tudo 20 e poucos anos, universitários”. Perguntada pelo magistrado qual o sentimento de estar ali, Cristiane disse que foi avisada de que poderia sofrer ao reviver os fatos, mas ela fazia isso em memória dos amigos falecidos. “É por eles que eu falo. É por eles que estou aqui”.

Não havia sinalização na boate e, “se tivesse, não daria para enxergar porque estava muito escuro”. Ela ouviu muitas pessoas reclamando que estavam sendo barradas de sair da Kiss. E que ninguém anunciou que se tratava de incêndio. “Eu tenho certeza de que muita gente morreu sem saber o que estava acontecendo”.

O julgamento foi retomado neste doming, 5, às 10 horas. Deverão ser ouvidos Thiago Mutti (testemunha de defesa do réu Mauro) e a vítima Delvani Brondani Rosso (Assistente de Acusação).

*Com informações do Tribunal de Justiça do RS