A Terapeuta Ocupacional Kelen Leite Ferreira estava com um grupo de oito amigos na boate Kiss na noite do incêndio. Segundo ela, a danceteria estava lotada e havia uma longa fila para entrar. A jovem, que na época tinha 19 anos, amputou parte da perna direita em razão da tragédia. Hoje ela usa uma prótese.

Em seu depoimento, contou ao Juiz Orlando Faccini Neto que, quando o fogo começou, "ninguém avisou nada". "Só vi uma multidão na minha frente. Achei que fosse briga, só me atinei em correr". Ela disse que como enxergava pouco em razão da fumaça e também não havia luzes indicativas para auxiliar na saída, caiu, tentou voltar para buscar as amigas (duas morreram), mas seguiu em direção à porta e tombou novamente. "Senti meus braços queimarem. Achei que fosse morrer ali e pedi a Deus pela minha família".

Kelen foi encaminhada para Porto Alegre, onde ficou 78 dias internada no Hospital de Clínicas. Ficou 15 dias em coma e passou por diversas cirurgias de enxerto de pele, em razão das queimaduras sofridas, e de colocação de prótese. Para tanto, precisou ingressar com ação judicial contra o Estado e o município de Santa Maria. Ela segue tomando medicação para o pulmão, que é cedida por uma rede de farmácias.

Narrou que era frequentadora da boate, mas nunca viu extintores de incêndio. O banheiro e a saída eram estreitos, na percepção da vítima. "A gente ia lá achando que estava seguro". Ela acredita também que quem não conhecia o local teria dificuldades para sair de lá.

Disse que a Banda Gurizada Fandangueira havia feito show dias antes na boate Absinto, que seria de propriedade do réu Mauro Hoffmann, e que utilizaram na ocasião artefato pirotécnico. Também declarou que era comum o uso desse material na Kiss, inclusive pela mesma banda.

A primeira testemunha a falar

Antes de Kelen, Kátia Pacheco Siqueira foi a primeira vítima ouvida em plenário e falou por mais de 4 horas. Na época, ela trabalhava na cozinha e no bar da boate. Em razão do incêndio, teve 40% do corpo queimado e precisou passar por cinco cirurgias de enxerto de pele e diversas cirurgias reparativas.

A vítima também foi submetida a tratamento psicológico e psiquiátrico, chegou a parar de assistir televisão e evitava falar sobre a tragédia. "Quando me perguntavam o que eram as queimaduras no braço, eu dizia que foi só um acidente. Só queria esquecer o que aconteceu". Hoje, grávida, Kátia disse ainda se incomodar em recordar dos fatos. "Minha filha está sentindo todo o sofrimento que estou revivendo. Neste momento, estou mais preocupada com ela do que comigo".

O Juiz Orlando Faccini Neto foi o primeiro a fazer perguntas. Ela contou que, na época em que trabalhava na Kiss, tinha contato apenas com a irmã de Elissandro Callegaro Spohr e trabalhava no local entre quinta-feira e sábado. Conforme a vítima, quando não tinha movimento, a casa recebia em torno de 300 pessoas; e quando estava lotada, "não podia andar lá dentro". Elissandro sempre estava presente nas festas.

As defesas dos quatro réus não fizeram perguntas à vítima. O júri começou pela manhã, com deliberações técnicas e sorteio dos jurados. À tarde foram iniciadas as oitivas das testemunhas. Duas sobreviventes da tragédias foram ouvidas ao longo do dia: a ex-funcionária da casa noturna, Kátia Siqueira, e Kelen Ferreira. 

O Tribunal do Júri ocorre no Foro Central, em Porto Alegre. A quarta-feira apresentou, também, tensões entre Ministério Público e a defesa em alguns momentos. O juiz Orlando Faccini Neto, que comanda o júri, precisou intervir para acalmar os ânimos.

Na manhã desta quinta-feira, devem ser ouvidos Emanuel Almeida Pastl e Jéssica Montardo Rosado. Na primeira hora da tarde, será ouvida a testemunha Miguel Ângelo Teixeira Pedroso. Depois, falam Lucas e Gustavo Cauduro.

O Tribunal do Júri é composto por seis homens e uma mulher, que ficarão incomunicáveis até o fim do julgamento, previsto para durar cerca de 15 dias. O primeiro dia de júri do caso Kiss se encerrou às 22h10min e retomou às 9 horas desta quinta-feira, 2.

*Com informações do Tribunal de Justiça e Correio do Povo